Laboratório de Humanidades
Há pouco mais de dez anos, iniciamos com um pequeno grupo de alunos do curso médico da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, uma atividade extra-curricular cujo objetivo era ler e discutir textos de história e filosofia. Na verdade, tal iniciativa partiu dos próprios alunos que, ao encerrarem a disciplina eletiva de História da Medicina, toda ela estruturada a partir da leitura e discussão de textos clássicos do tema – entre Hipócrates, Galeno, Paracelso, Harvey – exigiram um espaço para continuarem esta experiência para além dos limites curriculares. Alegavam para tanto não só a carência de leituras como estas em seu currículo, extremamente técnico, como a percepção do efeito formativo e “quase terapêutico” de uma experiência no mínimo inusitada no contexto universitário. Foi assim que nasceu o Laboratório de Humanidades (LabHum) do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde (CeHFi) da Unifesp.
Com o tempo, o grupo foi crescendo e a sua dinâmica amadurecendo. De textos clássicos da medicina passamos a clássicos da filosofia até chegarmos aos clássicos da literatura. A experiência da leitura, discussão e compartilhamento de sentimentos, impressões e idéias suscitadas pelas obras literárias entre o nosso público – formado agora não apenas por estudantes de medicina, mas também por graduandos de outros cursos da área da saúde, de pós-graduandos e até por docentes e funcionários da Unifesp – mostrou, de forma patente, o quanto as humanidades podem ser um efetivo meio de humanização.
Trabalhando com um grupo cada vez mais heterogêneo em termos de idades e interesses, ainda que identificado com o campo das ciências da saúde, logo percebemos que a dinâmica deveria girar em torno do compartilhamento de experiências. Não há, portanto, uma preocupação, por parte da coordenação do Laboratório, quanto a abordagens acadêmicas características da crítica literária ou das ciências humanas em geral. A cada início de ciclo, quando se começa a discutir uma obra que todos já tiveram a oportunidade de ler, os coordenadores convidam a cada um dos participantes do grupo a fazerem a sua história de leitura, ou seja, falar sobre as emoções, sentimentos, afetos, impressões que a leitura da obra suscitou. Posteriormente suscita-se também o levantamento do conjunto de idéias mais representativas que serão, ao longo do ciclo de discussão – que em geral duram de 5 a 6 encontros e que se realizam uma vez por semana – retomadas e debatidas.
Explorar e aprofundar a experiência afetiva que se produz ao nos depararmos com uma obra literária, é o objetivo primevo do Laboratório de Humanidades, pois sabemos que sem o envolvimento integral da pessoa, enquanto ser dotado de sentimento, inteligência e vontade, não pode haver uma efetiva experiência de humanização. Por isso, antes de adentrarmos em discussões filosóficas, sociológicas ou históricas mais profundas – que não apenas são desejáveis, mas inevitáveis – incentiva-se, antes de tudo, a manifestação e compartilhamento das sensações, das emoções. Tal dinâmica não apenas amplia a própria experiência da leitura individual do sujeito, como abre novas possibilidades de leitura para os outros que o escutam. Começa a experiência da “ampliação da esfera do ser”, como bem coloca Teixeira Coelho em seu ensaio sobre “A Cultura como Experiência”.
A abertura para a dimensão emocional e afetiva da experiência humanístico-literária apresenta-se, portanto, como convite e incentivador para um mergulho mais profundo na obra proposta. Logo nos primeiros dois encontros de cada ciclo, uma série de temas já começam a ser levantados e discutidos, possibilitando o desenvolvimento de análises intelectualmente mais complexas, de viés mais cultural, histórico, filosófico, científico. Sente-se aí a participação dos conteúdos mais específicos de formação e experiência profissional e mesmo de vida. Psicólogos, médicos, cientistas, historiadores, filósofos, vão agregando seus conhecimentos e vivências à discussão, sem a pretensão de formular teses ou respostas fechadas para as questões levantas, mas, sem dúvida, compartilhando saberes e análises, enriquecendo mutuamente as visões de mundo e de si mesmo.
Por fim, percebe-se o impacto de toda esta experiência humanística quando, após um certo tempo de participação no Laboratório, começa a se verificar como esta “ampliação da esfera do ser” passa a interferir na prática profissional e na vida como um todo, realidade aferida por não poucos colaboradores desta atividade. O processo, afetivo e intelectivo, detonado pela experiência da leitura e desenvolvido pela dinâmica do compartilhamento e discussão coletiva, completa-se na esfera volitiva, desencadeando mudanças de visão e atitudes; mudanças estas próprias de um movimento de “ampliação”, enfim de humanização.
Muitos são os testemunhos, ainda colhidos informalmente, nas próprias reuniões do Laboratório ou em conversa pessoal com os coordenadores, que atestam esta verdadeira experiência de humanização que advém da participação contínua nas dinâmicas laboratoriais. Uma experiência que toca, amplia e faz mudar a própria perspectiva existencial; uma experiência tão própria do humano, mas tão desvalorizada e esquecida no contexto atual.


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