Experiência no laboratório de humanidades, por Maria Lúcia Marcondes

 

"Admirável mundo novo”, essa foi a leitura do semestre. Inicialmente tive dificuldades no entendimento desse livro, achei complicado e desinteressante. A partir das discussões do grupo e das percepções alheias, percebi que ele poderia tornar-se interessante e comecei a me questionar: por que será que a leitura dele não fez sentido para mim? Fiquei tentada a recomeçar a leitura. Para minha surpresa percebi que tinham muitas coisas que deixava de perceber.

Algumas questões levantadas pelo grupo: no admirável mundo novo buscava-se a felicidade a todo custo; uma das maneiras de tornar os personagens mais felizes era eliminando qualquer tipo de sentimento; quando o sofrimento surgia tomava-se o soma e “ficava tudo bem”; eliminavam-se vínculos afetivos; as pessoas eram condicionadas a viverem de determinada maneira e aceitavam suas condições sem questioná-las.

Tentei entender o motivo, pelo qual a leitura do livro, inicialmente, não ter feito sentido para mim. Para minha surpresa me percebi como no admirável mundo novo. Estava lendo o livro de uma maneira “mecânica” e condicionada, parece que ele entrou no “pacote de coisas” que eu tinha para fazer no momento e não pude senti-lo de verdade. Na realidade me comportava como os personagens do livro, condicionada a realizar tarefas, deixando de lado meus sentimentos e emoções, ficando apenas na leitura do livro. Da mesma maneira que me percebo às vezes na vida, preocupada em realizar coisas deixando de lado meus sentimentos.

Isso me fez pensar que a realidade do admirável mundo novo é atual, podemos vivê-la dentro da gente sem ao menos percebê-la. Quando nos questionamos se é possível um admirável mundo novo, diria que sim, basta procurá-lo em nós mesmos, principalmente quando nos condicionamos a realizar “coisas” e deixamos de pensar, sentir, nos observar e perceber o outro. As ideias do autor do livro que a priori pareciam um absurdo, na realidade fazem parte da vida atual.

Em seguida, iniciamos a leitura do livro “Vida e Proezas de Alexis Zorbás”. Gostei bastante do livro, prendeu a atenção do começo ao fim. O narrador consegue falar de experiências da vida utilizando a simplicidade na maneira de ser do seu personagem Zorbás.

Duas coisas em especial me chamaram a atenção nesse livro: quando Zorbás fala da velhice e da morte. Ele diz que a morte não é o problema, pois é o fim de tudo, mas envelhecer é vergonhoso. Velhice e morte são dois temas teoricamente e espiritualmente muito debatidos. Mas, Zorbás nos coloca a pensar na prática, no aqui e agora e na experiência, como um “choque de realidade”.

Parece falar do envelhecimento de uma pessoa, que foi perdendo lentamente algumas das capacidades adquiridas durante a vida, seja por meio da doença ou do próprio limite da idade. Lidar com essa realidade é difícil, pois na vida nos preparamos somente para o bom, sempre queremos eliminar as dificuldades e que a morte, neste sentido, pode ser a solução de todos os problemas.

Outra experiência marcante que me fez pensar em Zorbás foi com meu filho de 11 anos. Um dia chegou e começou a fazer comentários sobre o futuro, que existiriam muitos robôs e haveria desumanização. Questionei o que ele entendia por desumanização e ele me disse que era “falta de contato humano”. Sua resposta me surpreendeu, principalmente pela simplicidade com que definiu essa palavra. Zorbás foi um homem de contato humano, vínculos e também conseguia falar de questões humanas de uma maneira muito simples, às vezes, como uma criança.

Zorbás é o homem que, segundo o narrador, vive principalmente o hoje e observa as coisas admirando-as como se fossem pela primeira vez, mas também guarda as experiências do passado, parece aprender muito com elas. Isso também me coloca a pensar na importância de vivermos o presente e ver sentido na vida e naquilo que é certo, que é tudo o que temos neste exato momento. Outra frase do meu filho de 15 anos me contrapõe essa idéia “devemos viver o hoje mas sabendo que tem amanhã, se eu sei que não vai existir o amanhã, que sentido tem o hoje?”. Esta seria outra maneira também possível de compreender esse tema.

Em minha opinião, a mais importante experiência no laboratório de humanidades é que não obtemos respostas para as questões da existência humana. Um mesmo fato pode ser visto e vivido de várias maneiras, dependendo da experiência de vida de cada um. O laboratório de humanidades nos ajuda a questionarmos nossa maneira de enxergar a vida. E tudo isso, pode ser um começo para relações humanizadas...

 

 


Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde - CEHFI
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
Ministério da Educação

Rua Loefgreen 2032, Vila Clementino, São Paulo, SP.

Fones: 55-11-55764848 ramal 2533 / 55-11-5084-8582