Névoa e apanhador, surpresas se msoluções, por Jair Marolla

Relatos de experiência no LabHum, ciclos NÉVOA de Miguel de Unamuno e O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

Jair Marolla
LIVRO: NÉVOA de Miguel de Unamuno
DATA: 08/05/2015

Inicialmente, ao chegar ao grupo (pois “Névoa” foi a minha primeira experiência com o laboratório de humanidades), achei que as discussões sobre leitura comum, seria algo que não contribuiria para sinergia ou conversão a um denominador comum, devido a mais diferentes versões e sensações que cada um poderia ter sobre a leitura, acreditava sinceramente que deveríamos sair do grupo com um desfeche final, formatado pelo grupo, como utilizamos na matemática quando demonstramos uma solução de um problema utilizando um ou mais teoremas, chancelando ao final um “cqd” (Como Queríamos Demonstrar). Saí da primeira reunião com a sensação “meu Deus já acabou, puxa passou muito rápido”, queria mais.

Confesso que foi uma surpresa extremamente agradável e enriquecedora, poder compartilhar e ouvir outras opiniões em cada encontro. Impressionante foi presenciar e ouvir as mais diversas facetas e percepções que as pessoas internalizam. Por eu ser uma pessoa extremamente técnica, vindo da área de exatas, sempre tive que mergulhar em pesquisa e desenvolver meus trabalhos de forma isolada, um tanto que carreira solo, o que não significa que não goste de compartilhar ou de trabalhar em grupo. A cada reunião, embora eu trouxesse comigo as minhas intuições, pensamentos internalizados, os quais construí sobre o autor e seus personagens, eu saía das reuniões totalmente satisfeito e entusiasmado ao ver quão grande e infindável é a arte de pensar, sentir, observar e formar opinião em torno da mesma leitura, isso é fantástico, fascinante. Acredito que mais aprendi, durante os laboratórios, do que ter acrescentado algo aos colegas do grupo.

Achei o livro Névoa de Miguel de Unamuno fantástico, uma mistura bem interessante entre a prosa com a filosofia. Sem dúvida é uma notável e inspirada obra prima da metalinguística onde Miguel de Unamuno transparece este efeito na parte final de sua obra, em que o personagem Dom Augusto Pérez discute com o seu criador qual é o seu papel na vida ou na novela (“nívola”).

Logo de início, o livro prende a atenção através do prólogo, assinado por um certo Víctor Goti, o qual escreve a contragosto, o próprio Goti diz: "Dom Miguel de Unamuno insiste que eu escreva um prólogo a este seu livro que relata a tão lamentável história de meu bom amigo Augusto Pérez e sua misteriosa morte". Esta sua declaração, me foi impactante, chocante, onde de imediato fui balançado por um sentimento estranho de que a ficção se promove no real. Literalmente, comecei a surfar em um mar de pensamentos que me vinham à tona sobre o que me esperava à frente, que surpresas me aguardavam sobre este, já misterioso para mim, Dom Augusto de Pérez. Quis logo devorar as próximas páginas.

Para tornar tudo mais “Névoa” o romance termina com uma "Oração fúnebre em forma de epílogo", em que se relata a morte do cão Orfeu. Como uma sombra (uma cerração), seu corpo jaz aos pés do cadáver de Pérez, "como ele envolto na névoa tenebrosa". Interessante que este epílogo não traz uma assinatura como acontece no prólogo, o que me deixou confuso, ou mesmo se a intenção do autor não seria cogitar se não é a própria névoa que, desprezando a presença dele, o autor, somente a névoa sozinha caminha por sua própria conta.

Para mim, o livro permeia a essência do ser humano, acima de qualquer classificação, pobre ou rico, plebeu ou nobre, proletário ou burguês: “o que mais fala e diz ao homem individual que é universal, o homem que se coloca ao mesmo tempo acima e abaixo das classes, castas, posições sociais, seja ele pobre ou rico, plebeu ou nobre, proletário ou burguês” pag 34.

Narra a continua luta da criatura com seu criador, o esforço trágico do homem para não sucumbir ante o poder divino, sobre a vida e o sonho, realidade e ficção. Interessante que Miguel de Unamuno disse sobre “Dom Quixote de la Mancha” que os dois personagens centrais, Dom Quixote e o seu escudeiro Sancho eram mais reais que o próprio Cervantes. Unamuno parece ter-se inspirado na Dulcinéia, do Quixote, para criar sua própria personagem, a fugidia Eugenia.

Névoa me foi uma leitura prazerosa, divertida, intrigante, que me provocou risos, desprezo algumas vezes, nojo, alegria e esperança. Muito me tocou a forma como Unamuno descreve o personagem Augusto, que em seu processo de reflexão continua (remoer a si mesmo) nos passa sua visão de mundo carregada de ocorrências insignificantes, pouco importantes, algumas boas, outras ruins, mas de certa forma causando ao próprio Augusto um obscurecimento de sua própria visão particular. É um livro que já faz parte da cabeceira de minha cama.

A meu ver Dom Augusto Pérez acreditava viver em um mundo nebuloso após a morte de sua mãe, até que uma mulher, Eugênia, uma aparição, cruza o seu caminho. Começa a partir desse encontro, dessa “obra do destino” um jogo que lembra as partidas de xadrez que Dom Augusto travava no clube com o seu melhor amigo e os diálogos daquele com o seu cão confidente, Orfeo (para mim, Orfeu retrata a alma do poeta, solitária, pensa, ouve, sente e se expressa sem palavras audíveis).

Uma história de um amor trágico entre o melancólico Augusto Pérez e de sua paixão por Eugenia, que após a ter encontrado e por ela se apaixonado platonicamente, passa a se encantar por todas as mulheres que encontra pelas ruas, percebendo detalhes e fragmentos em cada uma delas, que o instigam ao exercício de montar e remontar as peças de um quebra cabeça que ainda não é capaz de compreender. Eugenia foi a mulher de seu primeiro amor, o amor de todos os amores, uma pianista interesseira ("De onde brotou Eugenia? Ela é uma criação minha ou sou uma criação dela?").

Fiquei fascinado pela figura de Eugenia, uma mulher “diabólica”, sim, mas que na verdade, esta personagem (complementada pela de seu noivo, Maurício), ao contrário da idealização de Dom Augusto, jamais se perde na “névoa” de devaneios, e se revela portadora de um poderoso sentimento de realidade, incrível, que por vezes, confesso, me intrigou, me gerou desconforto, desprezo e encanto, por sua frieza de raciocínio, como quando despreza os sentimentos e idealizações de Dom Augusto a seu respeito.

Em certo momento tive a impressão de que Unamuno parecia ir na contramão de um padrão de sua época, imposto pela sociedade, onde a mulher ideal era marcada não só pela beleza física, mas também pela inocência, ternura, figura decorativa, admirável, cheia de virtudes, com muitos talentos e habilidades na administração do lar, mulher prática, religiosa, maternal e plenamente submissa a autoridade masculina. Mas aqui em "Névoa" percebo um autor a frente de seu tempo, arrojado e moderno, pois Dom Augusto, na condição de determinar seu destino conjugal (na condição de homem provedor, senhor, dono) – de que esta (Eugênia) seria a mulher da sua vida, que está nas primeiras páginas do livro, até os últimos capítulos, decide suicidar-se por haver sido rejeitado e traído por Eugênia.

Dom Augusto nunca obteve alguma forma de controle ou autoridade sobre Eugênia, ademais de ter todas as condições que lhe fariam submissa – ser órfã, dependente dos tios, e posição financeira muito inferior a Augusto – tem, durante todo o romance domínio sobre ele.

No decorrer do romance Dom Augusto conhece Rosário, uma mulher jovem, uma menina que lhe presta serviços domésticos, de procedência humilde, por quem ele nutre uma admiração, e para os padrões da sociedade, em que se insere o romance, era praticamente impossível para alguém na posição de Dom Augusto, homem rico, senhor, patrão, burguês, de maneira alguma permitiria a Rosário (posição inferior) impor algum domínio sobre seu senhor. Mas aqui me parece um processo de inversão, pois Augusto sente-se incomodado com alguma coisa que não consegue definir na personalidade de Rosário e o que pude perceber era que na verdade Rosário imprimia um certo domínio sobre Augusto e este por sua vez não possuía forças para se libertar. Por causa de sua insegurança, Dom Augusto, acaba questionando se o que sente mesmo é amor, e logo se volta para cortejar Eugênia, o que para seu espanto, esta o aceita. Unamuno parece brincar com as palavras paixão e ilusão, tornando-as sinônimas, nos dando a impressão que não acreditava em paixão sem ilusão, ou ainda, considerava plausível a ilusão sem paixão, ambas se caracterizam pelo ofuscamento dos sentidos. Nos deixa a percepção de que a paixão é o único remédio eficaz contra o tédio, o único agente capaz de abrandar a névoa da existência.

Unamuno me deixa concluir, se assim posso dizer, que a nossa vida é como um sonho do próprio Deus, transcendendo o lado literário, onde o autor apresenta uma fonte interminável de angustias, que todos trazemos conosco durante nossa trajetória nesta existência. “Você morrerá” diz Unamuno para Augusto Perez (sua criação), é como que se pudéssemos imaginar Deus, o criador, despertando de seu sonho, e o que acontecerá? Se Deus acordar de seus sonhos o nada será o nosso destino. Parece que Unamuno, em “Nevoa” está dizendo que Deus está nos “sonhando”, que não passamos de “personagens” na história cósmica divina. Unamuno enaltece os valores do bem e do mal, do amor e do ódio, do sonho e da esperança. Uma história que é realmente amorosa e levada às últimas consequências: o desencanto, a desilusão e o suicídio de Dom Augusto Pérez.

Para mim, “Névoa” é um livro que me fez pensar sobre a nossa própria existência, de qual material somos formados, quem é real ou quem é ficção. Parece que Unamuno quer nos levar a conclusão de que a simples existência não passa de uma névoa espessa.

Sem dúvida, Miguel de Unamuno foi um pensador a frente de seu tempo. Atualmente existe uma teoria da física quântica chamada ”Teoria do Campo Reticulado” estudada pelos cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, que sinceramente tive a impressão ter sido inspirada em “Névoa” (risos). Nesta teoria segundo os físicos pesquisadores, os estudos apontam para evidencias de que a nossa percepção humana sobre a realidade pode não passar de uma simples simulação virtual, a qual em determinados aspectos relacionados ao nosso planeta, nosso mundo físico, são suportados por elementos que sugerem que a nossa realidade pode não ser nada mais do que uma simulação computadorizada. Será que tudo não passa de um grande e bom jogo de videogame já criado? (http://literatortura.com/2012/10/fisicos-encontram-evidencias-de-que-realidade-pode-ser-uma-mera-simulacao-virtual/).

O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger
26/06/2015

Inicialmente tive a impressão de ser um livro extremamente chato, mas a medida que eu avançava na leitura e concomitantemente discutíamos capítulo a capítulo em classe, fui percebendo valores marcantes na vida de Holden, um jovem de 16 para 17 anos no fim da adolescência. Período marcado por transformações ao nível de corpos, gestos, pensamentos, emoções, desejos. Os direitos e responsabilidades entram em uma fase de transição onde os elementos mais infantis vão aos poucos cedendo lugar a uma nova identidade, sendo o período de novas experiências, dúvidas, ilusões, ousadias, conquistas internas e externas que marcam uma nova forma de ser e estar no mundo.

O livro tem como protagonista o jovem Holden Caulfield, um adolescente de 16 anos com dificuldade de deixar a inocência para trás e entrar na vida adulta. A história começa com Holden sendo reprovado na escola pela quarta vez, e consequentemente sendo expulso do colégio interno Pencey. Alguns dias antes da data marcada para ele voltar para casa, ele procura alguma forma de concluir seus últimos dias de vida escolar, mas acaba tão enjoado da escola e do seu colega de quarto que decide partir no meio da noite para Nova Iorque. Para não chegar em casa antes da data esperada por seus pais, ele decide ficar pela cidade para adiar o confronto com eles. Durante três dias na cidade, ele busca por respostas e conselhos em conversas com velhos amigos, taxistas, prostitutas, professores e freiras, chegando a conclusões muito importantes para sua vida. Quando seu dinheiro acaba, ele pensa em fazer um “mochilão” no oeste dos EUA, mas acaba voltando para casa, principalmente para estar com sua irmã mais nova, Phoebe. Apesar do autor não explicitar ao longo da obra, é possível fazer uma divisão dos assuntos abordados em três partes: quando Holden é expulso da escola Pencey Prep, as aventuras de Holden na cidade de Nova Iorque e, por fim, o retorno de Holden à sua casa.

Holden é um adolescente comum, que procura seu lugar no mundo. É uma pessoa solitária, embora não esteja nunca sozinho. Não vê sentido em continuar estudando. Quer sair para ver o mundo e buscar sua independência, mas o desconhecido o assusta. Não tolera a hipocrisia dos adultos, não suporta o comportamentos dos amigos, detesta tudo e todos.

Os acontecimentos do livro se passam em torno de 1946, um pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando o EUA vivia um período de grande prosperidade financeira onde os americanos compraram como nunca. Foi um período de estremo consumismo: casas, televisões, carros, máquinas de lavar e outros bens de consumo. Eles compartilhavam da sede pelo sucesso; pensavam que entrar numa boa faculdade era a garantia de uma boa vida, e parece que foi exatamente esse tipo de pensamento que J.D. Salinger criticou em sua obra, por meio da voz de Holden Caulfield. O Jovem Holden Caulfield perambula pela cidade, à procura de si mesmo, de um sentido para continuar a viver, e rememora momentos marcantes de sua vida. Entre eles, quando a irmã pergunta-lhe porque era rebelde, porque se auto-destruía e porque não gostava de nada. Ele, angustiado, depressivo, evoca a imagem criada pelo poeta escocês Robert Burns, uma metáfora de sua vida. Imaginou um campo de centeio repleto de crianças brincando e a si na borda do abismo apanhando as que caíam! Assim sentia-se, um reflexo de sua geração. Assim, Holden explica que não consegue se imaginar se encaixando em nenhum papel que a sociedade espera dele, como por exemplo, ser um advogado ou um cientista. Ao invés disso, ele se imagina como um apanhador no campo de centeio, que fica na beira de um grande campo de centeio protegendo criancinhas, impedindo-as de cair. Com isso, é possível ver os dois lados da personalidade de Holden, quando ele admite que ele é um fracasso e que não consegue se encaixar no mundo adulto, mas também é sensível e inocente, tendo compaixão e compreensão por aqueles que são desprezados ou indefesos.

Entendi que esta obra retrata uma realidade atual, um retrato fiel da adolescência, a ficção imita perfeitamente a realidade. O autor descreve sobre medos e dúvidas que cercam a vida de um jovem de 16 anos e que não foi diferente da minha própria adolescência e da maioria dos colegas em classe. Holden, o personagem principal, vive um dilema infernal entre o bem e o mal, em toda narrativa ele vive de desavenças. Parece que o objetivo do autor é nos fazer pensar sobre o comportamento humano, o aspecto moral das personagens envolvidas na trama e a hipocrisia que se instaura na vida de uma pessoa adulta. Para mim, Holden não era um adolescente revoltado, como eu havia internalizado ao ler os primeiros capítulos do livro, na verdade acabei a leitura da obra entendendo que ele estava apenas tentando encontrar seu lugar no mundo e lidando, resolvendo interiormente a situação da perda de uma pessoa tão próxima e amada, Allie, seu irmão mais novo que havia falecido.

A experiência em compartilhar e ouvir os colegas do grupo foi um material enriquecedor, mesmo havendo tantos pontos de vistas divergentes, pude aprender com todos, especialmente com os colegas da área de psicologia.

No decorrer da leitura desta obra, e acompanhado pelas discussões calorosas e sempre profundas, me vi viajando com Holden à muitos lugares, episódios de minha própria adolescência, todavia temos todos um único objetivo: a volta para casa, ou seja, o enfrentamento da realidade nua e crua e o final dos sonhos infantis.

 


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