A espessa névoa presente no cotídiano

A seguir mais dois relatos de participantes do LabHum, a partir das discussões sobre o  livro NÉVOA de Miguel de Unamuno
SÃO PAULO 2015

 

Tão distante nas páginas do livro e tão presente na vida cotidiana
Por ANA CRISTINA DA ROCHA

A nívola interpelada no personagem tão distante nas páginas do livro e tão presente nas atuações da vida cotidiana, nos posiciona do quanto muitos de nós estamos ainda a procura de encontrar um caminho para seguir, não se importando qual seja o caminho, más que seja aquele que puder levar-nos á encontrar um sentido do tempo e da vida, algo que possa produzir um despertar.

Quem de nós em algum momento não foi ou é Augusto (protagonista).

Atraído por uma esperança de mudança de uma vida monótona, que por muitas vezes nos faz permanecer em questionamentos, por estarmos vivendo presos a um vazio de existência.

Por vezes assim como Augusto saímos a procura de razões diversas para tentar se encaixar nas frestas ou fissuras dos espaços abertos.

As verdades que vivemos por vezes são surrealistas, abstratas que acabam por se tornar entediantes; por vezes este mesmo tédio torna-se rotinas sistemáticas como aquelas enfrentadas pelo personagem.

Muitas vezes a própria simplicidade não é compreendida e aquele que vive esta virtude é um ser diferente "esquisito"; quando o Augusto expõem sua simplicidade ao se referir a Deus, onde fala da contemplação da proteção e assimila esta proteção ao guarda-chuva e a contemplação da beleza de mantê-lo fechado, para ele esta comparação possui o mesmo sentido e possui o mesmo propósito, porém para muitos possa ser este colóquio um tanto estranho.

Algumas de suas comparações transcendem a lógica cotidiana; compara o trabalhador no contexto de viver de aparência, são estas as suas verdades, que não se distanciam de nossas realidades.

Assim como ele permanecemos presos a detalhes, e não conseguimos por vezes encontrar algo que possa ocupar nosso cérebro, o que nos leva a permanecer constantemente no conveniente do uso de um controle remoto, que por um estímulo nos impulsiona ao automático, fugindo de tudo que escapa ao controle já pré estabelecido.

Augusto o tempo todo trava um diálogo com sua mente, a qual projeta em fantasia divagando em delírios, em busca de preencher o vazio que o atormenta, na  qual se alimenta pelas tristezas ou pelas alegrias vividas.

Quando se refere a casa no contexto de ser FRIA, um lugar que se vai apenas para dormir, ele está desejoso de torná-la um lar, onde possa ser acolhido, onde possa ir ao encontro dos que o ama. Este é o desejo de todo aquele que conhece o sentido da FAMÍLIA.

Encontra Eugênia a mulher que ele idealiza  no contexto da perfeição, como um escultor que modela a argila sem forma e que aos poucos a transforma em algo belo. Sendo Eugênia uma criação sua, pertencia somente a ele, no entanto a outra Eugênia era apenas a outra mulher que foi esculpida por outro. O interessante é que nós fazemos o mesmo constantemente, idealizamos as pessoas a nossa volta, modelando a cada uma como escultor projetando nossos desejos e anseios.

Era ela a esperança de uma nova forma de ver a vida, uma nova chance de viver, não era paixão o que ele sentia, era ela a razão  a substituir o instinto pela vontade, a fim de alcançar a harmonia da vida e, portanto a sabedoria de viver.

Que benção seria esquecer da vida e da morte que o atormenta, seria ela uma esperança de sair de uma vida projetada de rotinas, onde o roteiro era vivido sempre da mesma forma; e por este motivo sempre busca o alimento que lhe traga oportunidades de exercitar o novo, retirando até mesmo do mistério da vida as migalhas do prazer, o que o faz generalizar os homens como racionais e não sentimentais, onde as dores e alegrias estão presentes e não á amostra.

De tanto estudar a vida, transforma-se em um Filósofo, fala do mundo de fantasia que vive e encontra luzes nos olhos de Eugênia, na esperança de iluminar a escuridão de seus sentimentos, expõem desta forma o desejo de ter um contato, acredita achar o rumo por alguns instantes distanciando-se da névoa da cogitação de seus pensamentos obscuros quanto aos sentidos.

Em nada se distancia do que vivemos, do que sentimos e desejamos, a verdade é que somos também Filósofos questionadores incansáveis a busca do princípio do conhecimento das causas.

Ao se deparar com Rosária, acende  o instinto de sobrevivência e sua esperança se multiplica, e o encantamento o impulsiona a seguir em frente.

Acredita ser ele alguém diferente das pessoas que circulam a sua volta, pois a sua compreensão o leva a acreditar que as pessoas vivem a igualdade, e isso doía profundamente por não compreender que força o leva a fugir deste conceito. Invadido pelo medo de ser um morto vivo, um vivo por estar vivenciando e um morto por não ter razões para viver.

Ele nada pede e nada espera, e quantos de nós desejamos apenas que nos deixe contemplar a luz que possa reluzir á um novo caminho.

Em um algum momento houve um despertar, a qual retrata o hipnotismo que o envolvia em torno de sua vida, que atinge o abalo após conhecer Eugênia, que o desperta do sono profundo, e que ao renascer descobre que breve irá partir.

Um tremor o invade "medo" do que irá se apresentar a partir daquele momento onde suas ilusões foram quebradas "partidas", que tipo de juiz terá que enfrentar? Aquele que irá o inocentar ou irá acusá-lo?

Derrepente parece que o mundo começa a jogar sobre ele o peso de toda tormenta, não abrindo espaço para que haja a respiração, deseja que haja braços que o acolham sem acusações, onde possa ser amado e compreendido.

Há momentos em nossas vidas que este peso precisa ser libertado de nossos pensamentos, para que haja um raciocínio sem sofrimento e sem angústia, e desta forma haja o controle de si mesmo. Foi o que faltou à Augusto!

Nota-se que Unamuno por descrever com tanta veemência a luta de Augusto, descreve parte de seu intimo e isso caracteriza-se ainda mais acentuado ao descrever as diferentes opções de choro, lágrimas que escaldam as de raiva, lágrimas que refrescam e desafogam, e lágrimas que queimam e sufocam mais. Caracteriza uma luta de não aceitar que seus sentimentos sejam expostos em tom de brincadeira, temendo que sua fraqueza seja descoberta, bem como, sua vulnerabilidade, medo de que algo possa lhe tirar o chão. Não suportava ser trocado como uma peça de um jogo onde as posições eram invertidas de acordo com os desejos dos outros, sem se importarem com seus sentimentos.

Augusto e Unamuno, sabiam que neste jogo poderiam perder, pois se sentiam culpados de não serem o que esperavam que eles fossem.

A verdade é que neste teatro da vida assumimos diversos papeis, onde nos aprimoramos para nos tornarmos bons atores.

E ao se fechar a cortina em meio a encenação da NEVOA numa comutação entre comédia e tragédia encenada na vida de Augusto, que acaba por um impulso acreditando ter encontrado o fim de suas tormentas através do suicídio.

A simples existência não passa de uma névoa espessa
Por Jair Marolla

Inicialmente, ao chegar ao grupo (pois “Névoa” foi a minha primeira experiência com o laboratório de humanidades), achei que as discussões sobre leitura comum, seria algo que não contribuiria para sinergia ou conversão a um denominador comum, devido a mais diferentes versões e sensações que cada um poderia ter sobre a leitura, acreditava sinceramente que deveríamos sair do grupo com um desfeche final, formatado pelo grupo, como utilizamos na matemática quando demonstramos uma solução de um problema utilizando um ou mais teoremas, chancelando ao final um “cqd” (Como Queríamos Demonstrar). Saí da primeira reunião com a sensação “meu Deus já acabou, puxa passou muito rápido”, queria mais. Confesso que foi uma surpresa extremamente agradável e enriquecedora, poder compartilhar e ouvir outras opiniões em cada encontro. Impressionante foi presenciar e ouvir as mais diversas facetas e percepções que as pessoas internalizam. Por eu ser uma pessoa extremamente técnica, vindo da área de exatas, sempre tive que mergulhar em pesquisa e desenvolver meus trabalhos de forma isolada, um tanto que carreira solo, o que não significa que não goste de compartilhar ou de trabalhar em grupo. A cada reunião, embora eu trouxesse comigo as minhas intuições, pensamentos internalizados, os quais construí sobre o autor e seus personagens, eu saía das reuniões totalmente satisfeito e entusiasmado ao ver quão grande e infindável é a arte de pensar, sentir, observar e formar opinião em torno da mesma leitura, isso é fantástico, fascinante. Acredito que mais aprendi, durante os laboratórios, do que ter acrescentado algo aos colegas do grupo. Achei o livro Névoa de Miguel de Unamuno fantástico, uma mistura bem interessante entre a prosa com a filosofia. Sem dúvida é uma notável e inspirada obra prima da metalinguística onde Miguel de Unamuno transparece este efeito na parte final de sua obra, em que o personagem Dom Augusto Pérez discute com o seu criador qual é o seu papel na vida ou na novela (“nívola”). Logo de início, o livro prende a atenção através do prólogo, assinado por um certo Víctor Goti, o qual escreve a contragosto, o próprio Goti diz: "Dom Miguel de Unamuno insiste que eu escreva um prólogo a este seu livro que relata a tão lamentável história de meu bom amigo Augusto Pérez e sua misteriosa morte". Esta sua declaração, me foi impactante, chocante, onde de imediato fui balançado por um sentimento estranho de que a ficção se promove no real. Literalmente, comecei a surfar em um mar de pensamentos que me vinham à tona sobre o que me esperava à frente, que surpresas me aguardavam sobre este, já misterioso para mim, Dom Augusto de Pérez. Quis logo devorar as próximas páginas.

Para tornar tudo mais “Névoa” o romance termina com uma "Oração fúnebre em forma de epílogo", em que se relata a morte do cão Orfeu. Como uma sombra (uma cerração), seu corpo jaz aos pés do cadáver de Pérez, "como ele envolto na névoa tenebrosa". Interessante que este epílogo não traz uma assinatura como acontece no prólogo, o que me deixou confuso, ou mesmo se a intenção do autor não seria cogitar se não é a própria névoa que, desprezando a presença dele, o autor, somente a névoa sozinha caminha por sua própria conta.

Para mim, o livro permeia a essência do ser humano, acima de qualquer classificação, pobre ou rico, plebeu ou nobre, proletário ou burguês: “o que mais fala e diz ao homem individual que é universal, o homem que se coloca ao mesmo tempo acima e abaixo das classes, castas, posições sociais, seja ele pobre ou rico, plebeu ou nobre, proletário ou burguês” pag 34.

Narra a continua luta da criatura com seu criador, o esforço trágico do homem para não sucumbir ante o poder divino, sobre a vida e o sonho, realidade e ficção. Interessante que Miguel de Unamuno disse sobre “Dom Quixote de la Mancha” que os dois personagens centrais, Dom Quixote e o seu escudeiro Sancho eram mais reais que o próprio Cervantes. Unamuno parece ter-se inspirado na Dulcinéia, do Quixote, para criar sua própria personagem, a fugidia Eugenia.

Névoa me foi uma leitura prazerosa, divertida, intrigante, que me provocou risos, desprezo algumas vezes, nojo, alegria e esperança. Muito me tocou a forma como Unamuno descreve o personagem Augusto, que em seu processo de reflexão continua (remoer a si mesmo) nos passa sua visão de mundo carregada de ocorrências insignificantes, pouco importantes, algumas boas, outras ruins, mas de certa forma causando ao próprio Augusto um obscurecimento de sua própria visão particular. É um livro que já faz parte da cabeceira de minha cama.

A meu ver Dom Augusto Pérez acreditava viver em um mundo nebuloso após a morte de sua mãe, até que uma mulher, Eugênia, uma aparição, cruza o seu caminho. Começa a partir desse encontro, dessa “obra do destino” um jogo que lembra as partidas de xadrez que Dom Augusto travava no clube com o seu melhor amigo e os diálogos daquele com o seu cão confidente, Orfeo (para mim, Orfeu retrata a alma do poeta, solitária, pensa, ouve, sente e se expressa sem palavras audíveis).

Uma história de um amor trágico entre o melancólico Augusto Pérez e de sua paixão por Eugenia, que após a ter encontrado e por ela se apaixonado platonicamente, passa a se encantar por todas as mulheres que encontra pelas ruas, percebendo detalhes e fragmentos em cada uma delas, que o instigam ao exercício de montar e remontar as peças de um quebra cabeça que ainda não é capaz de compreender. Eugenia foi a mulher de seu primeiro amor, o amor de todos os amores, uma pianista interesseira ("De onde brotou Eugenia? Ela é uma criação minha ou sou uma criação dela?").

Fiquei fascinado pela figura de Eugenia, uma mulher “diabólica”, sim, mas que na verdade, esta personagem (complementada pela de seu noivo, Maurício), ao contrário da idealização de Dom Augusto, jamais se perde na “névoa” de devaneios, e se revela portadora de um poderoso sentimento de realidade, incrível, que por vezes, confesso, me intrigou, me gerou desconforto, desprezo e encanto, por sua frieza de raciocínio, como quando despreza os sentimentos e idealizações de Dom Augusto a seu respeito.

Em certo momento tive a impressão de que Unamuno parecia ir na contramão de um padrão de sua época, imposto pela sociedade, onde a mulher ideal era marcada não só pela beleza física, mas também pela inocência, ternura, figura decorativa, admirável, cheia de virtudes, com muitos talentos e habilidades na administração do lar, mulher prática, religiosa, maternal e plenamente submissa a autoridade masculina. Mas aqui em "Névoa" percebo um autor a frente de seu tempo, arrojado e moderno, pois Dom Augusto, na condição de determinar seu destino conjugal (na condição de homem provedor, senhor, dono) – de que esta (Eugênia) seria a mulher da sua vida, que está nas primeiras páginas do livro, até os últimos capítulos, decide suicidar-se por haver sido rejeitado e traído por Eugênia.

Dom Augusto nunca obteve alguma forma de controle ou autoridade sobre Eugênia, ademais de ter todas as condições que lhe fariam submissa – ser órfã, dependente dos tios, e posição financeira muito inferior a Augusto – tem, durante todo o romance domínio sobre ele.

No decorrer do romance Dom Augusto conhece Rosário, uma mulher jovem, uma menina que lhe presta serviços domésticos, de procedência humilde, por quem ele nutre uma admiração, e para os padrões da sociedade, em que se insere o romance, era praticamente impossível para alguém na posição de Dom Augusto, homem rico, senhor, patrão, burguês, de maneira alguma permitiria a Rosário (posição inferior) impor algum domínio sobre seu senhor. Mas aqui me parece um processo de inversão, pois Augusto sente-se incomodado com alguma coisa que não consegue definir na personalidade de Rosário e o que pude perceber era que na verdade Rosário imprimia um certo domínio sobre Augusto e este por sua vez não possuía forças para se libertar. Por causa de sua insegurança, Dom Augusto, acaba questionando se o que sente mesmo é amor, e logo se volta para cortejar Eugênia, o que para seu espanto, esta o aceita. Unamuno parece brincar com as palavras paixão e ilusão, tornando-as sinônimas, nos dando a impressão que não acreditava em paixão sem ilusão, ou ainda, considerava plausível a ilusão sem paixão, ambas se caracterizam pelo ofuscamento dos sentidos. Nos deixa a percepção de que a paixão é o único remédio eficaz contra o tédio, o único agente capaz de abrandar a névoa da existência.

Unamuno me deixa concluir, se assim posso dizer, que a nossa vida é como um sonho do próprio Deus, transcendendo o lado literário, onde o autor apresenta uma fonte interminável de angustias, que todos trazemos conosco durante nossa trajetória nesta existência. “Você morrerá” diz Unamuno para Augusto Perez (sua criação), é como que se pudéssemos imaginar Deus, o criador, despertando de seu sonho, e o que acontecerá? Se Deus acordar de seus sonhos o nada será o nosso destino. Parece que Unamuno, em “Nevoa” está dizendo que Deus está nos “sonhando”, que não passamos de “personagens” na história cósmica divina. Unamuno enaltece os valores do bem e do mal, do amor e do ódio, do sonho e da esperança. Uma história que é realmente amorosa e levada às últimas consequências: o desencanto, a desilusão e o suicídio de Dom Augusto Pérez.

Para mim, “Névoa” é um livro que me fez pensar sobre a nossa própria existência, de qual material somos formados, quem é real ou quem é ficção. Parece que Unamuno quer nos levar a conclusão de que a simples existência não passa de uma névoa espessa.

Sem dúvida, Miguel de Unamuno foi um pensador a frente de seu tempo. Atualmente existe uma teoria da física quântica chamada ”Teoria do Campo Reticulado” estudada pelos cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, que sinceramente tive a impressão ter sido inspirada em “Névoa” (risos). Nesta teoria segundo os físicos pesquisadores, os estudos apontam para evidencias de que a nossa percepção humana sobre a realidade pode não passar de uma simples simulação virtual, a qual em determinados aspectos relacionados ao nosso planeta, nosso mundo físico, são suportados por elementos que sugerem que a nossa realidade pode não ser nada mais do que uma simulação computadorizada. Será que tudo não passa de um grande e bom jogo de videogame já criado? (http://literatortura.com/2012/10/fisicos-encontram-evidencias-de-que-realidade-pode-ser-uma-mera-simulacao-virtual/).

 


Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde - CEHFI
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
Ministério da Educação

Rua Loefgreen 2032, Vila Clementino, São Paulo, SP.

Fones: 55-11-55764848 ramal 2533 / 55-11-5084-8582