A névoa que cobria os meus olhos foi se dissipando aos poucos

Seguem dois relatos de participantes do LabHum, ciclo Névoa (1º sem. de 2015).

 

Unamuno- NÉVOA
Varner Timóteo - Mestrando do CEDESS

Leitura do livro Névoa de Miguel de Unamuno

Para mim o livro começou meio sem interesse, pois a leitura tinha somente o intuito de cumprir normativas do mestrado, mas com o passar das páginas ele foi se revelando uma leitura que prendia a atenção.

As conversas sobre a leitura do livro, sobre a realidade do personagem, sobre nossas experiências de vida foram transformando a simples leitura em algo mais apaixonante, mais real.

O livro tem nosso principal personagem Dom Augusto Peres, mas no decorrer da trama aparecem outros personagens como o amigo Vitor, o casal de criados Domingos e Liduvina, a personagem da trama Eugenia e Rosário, os tios de Eugenia, Dom Fermím e tia Ermelinda, o noivo de Eugenia Mauricio, o erudito Antolín S. Paparrigópulos, e o espetacular Orfeu, enfim cada um terá um lugar em especial na vida de nosso personagem, inclusive o próprio Unamuno.

Primeiro achei que D. Augusto era um perfeito banana, um tapado, um burguês sempre paparicado pelos empregados e pela mãe, um ser manipulado pela vontade da mãe que, um ser tão metódico que no capitulo II ele tem uma passagem que marca essa fase, “Almoçou com prazer seu almoço de todos os dias: dois ovos fritos, bisteca com batatas e um pedaço de queijo Gruyèe”. Pag. 45

Como exemplificado em nossos debates falamos que o pobre, pois como disse minha visão sobre Augusto mudou, ele foi retratado como um passante pela vida, um homem que não criaria nada, um burguês sem ambição para algo que não seja seu mundinho.

Augusto era um sonhador em meio a Nevoa, até descobrir que poderia viver algo novo, algo diferente que era ser enamorado por uma mulher.

Augusto tenta descobrir o mundo novo de entendimento que esta turbilhando sua vida, ele procura tentar entender e começa uma jornada por onde dominava o intelectual e vai a procura de uma solução, onde passa de experimento a experiência, como na passagem onde fala com Orfeu “Sim, sim, e farei duas monografias, já que agora levam a sério as monografias; uma se intitulará Eugenia, e a outra, Rosario, acrescentando: Estudo de mulher. Que te parece minha ideia, Orfeu?” pag 177. E mais a frente ele passará a ser o experimento, a rã.

Em meio à trama ele sofre uma desilusão muito grande, um plano tramado por sua então sonhada enamorada Eugenia, que comunada com Mauricio e aproveitando da ingenuidade de Augusto fogem com o amor de sua vida mesmo sabendo que sempre terá que carrega-lo.

Desiludido nosso protagonista vai ao encontro de seu criador, até então não sabia que ele era o criador, ele vai procura-lo para tentar suprir uma dor, pois ele sabia que Unamuno tinha escrito um artigo sobre suicídio, e o encontro dos dois acaba por revelar os planos do escritor em mata-lo.

Ao voltar de Salamanca, nosso Augusto tem seu fim decretado, e ai vem à parte mais emocionante do livro a “Oração fúnebre em forma de epílogo”, onde Orfeu faz um relato de como era viver com seu dono sua trajetória de vida, as angustias vivida por ele junto ao dono, e por fim o realto de Domingos que em choro recolhe o cão morto e diz:

- E ainda dirão que o amor não mata!

Aproveito para agradecer a oportunidade de aprendizado de observar novas formas de pensamentos, novos conceitos sobre vida, amor, esperança, dia a dia, a oportunidade de conviver com pessoas totalmente diferentes de nosso circulo de amizade.

Espero em breve poder participar de uma nova rodada de leitura.

RELATO – impressões sobre a rodada do Ciclo I “Em meio à Névoa, o humano”
Cleivânia Lima de Almeida

Despi-me dos preconceitos e entreguei-me à Unamuno coberta por uma nuvem, uma névoa. Então, tive de desconstruir aquela imagem estereotipada, característica de suas personagens, e tentar descobrir um ângulo ainda não explorado e secreto dessa obra instigante: o meu, como leitora de Miguel de Unamuno.

NÉVOA

(inspirada em “Névoa”, obra de Miguel de Unamuno)

A névoa que cobria os meus olhos

Foi se dissipando aos poucos.

Assim pude ver você

Totalmente inerte,

Sem vontade pra nada.

Tão absorta,

Num silencio ensurdecedor.

De repente é despertada

Com o barulho sutil de uma folha que acabara de cair.

E vejo que você se vê e se descobre

Num mundo repleto de desafios, de Névoa,

Apesar das limitações.

E esta é a contribuição a essa nova rodada do Ciclo I, cuja proposta foi adentrar nesse mundo de Névoa (Miguel de Unamuno) e descobrir o humano em mim, o humano em você, o humano em nós.

Ao discorrer sobre a leitura, inevitavelmente, fiz comparações das personagens com a realidade. Daí, pude perceber como estão presentes no nosso cotidiano dom Augusto, Eugênia, Orfeu... e Maurício (não o meu Maurício, que ao contrário de Augusto, é um caminhante da vida e não um passeante).

Ah, como torci pelo Augusto, pela Rosário e pelo Orfeu. As demais personagens estavam arranjadas na vida, com exceção do tal Maurício (o de Unamuno).

Em muitos momentos me vi participando da história, à espreita, escondida à sombra do Augusto (como desejei esbofetear a Eugênia, e olha que não sou a favor da violência, para mim o diálogo é sempre a solução).

Será que existe a figura do leitor-observador que participa efetivamente da história, interagindo com as outras personagens? E não é isso que o autor propõe? Esse é o meu lado “dom Augusto”.

Unamuno nos convida para assumir o papel do outro: se você estivesse no lugar do dom Augusto, o que faria? Se você estivesse no lugar da Eugênia, o que faria? E da Rosário?

“Gostando você ou não, eu, Miguel de Unamuno, fiz assim. E fui além, participei da história o tempo todo, aqui e ali, sutilmente, e ainda dialoguei com a minha personagem principal, dom Augusto. Como me diverti.”

Pronto, já estou na Névoa!

Naquele momento o Miguel (de Unamuno) me pegou de jeito. Para mim aquele encontro foi o gran finale ao lado da Oração Fúnebre em Forma de Epílogo. Quanta angústia! Eu Quase enlouqueci.

Aceitei o convite para esse mergulho individual e ao mesmo tempo coletivo, então a névoa densa que me envolvia foi se dissipando, dissipando, dissipando... (pensando bem, ou fui induzida pelo autor a aceitar o convite – ou será que foi pelo Dante, não o Alighieri, escritor, poeta, autor da Divina Comédia, e político italiano, mas o Dr. Dante Marcello Claramonte Gallian, o professor?). Ainda bem que eu não estava só.

NUNCA ME ESQUECEREI DE NÉVOA, DE MIGUEL DE UNAMUNO!

Essa experiência enriquecedora, proporcionada pelo LabHum, trouxe questões que servirão como suporte para o desenvolvimento do meu projeto, especialmente na fase de pesquisa de campo.

“Em meio à névoa, o humano” é uma analogia perfeita a uma das propostas do projeto de pesquisa “Atenção integral ao portador da Síndrome do Olho Seco pelo SUS: um estudo exploratório” que é perfazer o caminho que o portador percorreu até ser atendido pelo Sistema Único de Saúde. Adentrar no mundo do portador para conhecer e avaliar as necessidades relacionadas ao atendimento, assim como o mapeamento do contexto onde ele está inserido, isto é, suas relações pessoais e interpessoais (psicossociais) a respeito de suas vivências com intuito de dissipar essa Névoa. Isto servirá, entre outras ações, para traçar uma política de atendimento integral que corresponda aos anseios e necessidades do mesmo.

 


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