RESSURREIÇÃO, por Aparecida Bastos Pereira

História de Convivência de RESSURREIÇÃO, Liev Tolstói
por Aparecida Bastos Pereira

Ressurreição é “um soco no estômago”, parafraseando Clarice Lispector em A Hora da Estrela!

A contundência com que Tolstói expõe a desconsideração de uns seres humanos pelos outros, ao tornarem-se anestesiados, impermeáveis ao amor, ao reconhecimento do outro como humano, é assustadora, e me fez experimentar os mesmos sentimentos de vergonha e nojo vivenciados por Nekhliúdov à medida em que, ao longo da sua peregrinação,  ele vai constatando a crueldade que permeia estas relações.

Eu podia sentir o texto de Tolstói encarnado na minha vida nos momentos em que me percebia em um lugar de falta de cuidado e atenção com o outro, ou quando, numa reviravolta de posições, lá estava eu incluída em uma massa cinzenta e disforme, sem ser considerada na minha humanidade.

As situações no meu cotidiano, que ganhavam contorno de normalidade embaladas por um certo adormecimento protetor, ganharam uma nitidez às vezes quase insuportável, não sendo possível descansar na “repousante escuridão do inconsciente” quando me deparava com as experiências de desvalorização da vida humana.

Como trabalho na saúde pública, foi neste cenário onde tive impressões mais impactantes, quando ao cruzar os corredores do hospital em que trabalho observava o cortejo de pessoas tão desprovidas da sua humanidade que parecia “que não eram gente, mas criaturas diferentes, estranhas”, como afirmava Nekhliúdov quando se referia ao cortejo de prisioneiros.

Em muitos momentos podia ver os profissionais-burocratas, descritos por Nekhliúdov, arrastando mais um dia de trabalho, indiferentes ao outro humano, movidos apenas pelo interesse de livrar-se rapidamente daquelas pessoas que lhes causava transtorno e desconforto com a sua doença e morte – ”pássaros ainda vivos debatendo-se dentro da bolsa do caçador: dá nojo, dá pena, vem a vontade de matar de uma vez e esquecer”.

Ao mesmo tempo, ao longo da narrativa de Tolstói, eu não deixava de vislumbrar a esperança na transformação que ele anuncia belamente logo no primeiro parágrafo: “Por mais que aquelas centenas de milhares de pessoas amontoadas num espaço pequeno se empenhassem em estropiar a terra sobre a qual se comprimiam, por mais que atravancassem a terra com pedras para que nelas nada crescesse, por mais que arrancassem qualquer capinzinho que conseguisse abrir caminho para brotar, por mais que esfumaçassem o ar com carvão e petróleo, por mais que cortassem árvores e expulsassem todos os animais e pássaros – a primavera era a primavera”.

Percebia que, em um ou outro pequeno gesto – como a alegria de Máslova com o “ar primaveril” no momento em que era levada para julgamento-, o autor indicava que mesmo em meio a condição de degradação psíquica e social em que se encontravam os personagens, algo estava pronto para renascer.

Ressurreição fica para mim, portanto, como uma afirmação desta possibilidade de renascimento e transformação, que vai acontecendo ao longo de um caminho tortuoso, sujeito a enganos, desvios, em meio a uma condição social adversa, e que pode ser garantida unicamente pela experiência do amor incondicional ao outro.

Este chamado de Tolstói à vivência do amor incondicional, que ele vai de modo contundente encarnando na relação entre os personagens, ressoou em mim profundamente, e faz com que Ressurreição se torne um dos meus livros de cabeceira!

Com Nekhliúdov eu deveria repetir todos os dias: “A questão toda reside no fato de as pessoas pensarem que existem situações em que se pode tratar um ser humano sem amor, mas tais situações não existem. Pode-se tratar as coisas sem amor: pode-se cortar uma árvore, fazer tijolos, forjar o ferro sem amor; mas é impossível tratar as pessoas sem amor, assim como é impossível lidar com as abelhas sem cuidado... porque o amor recíproco é a lei básica da vida humana”.

E Tolstói me lembra, por fim, da alegria delicada que acompanha esta vivência do amor incondicional, que não se fundamenta no encontro da “minha felicidade”, mas na realização do ato sagrado (sacrifício) de abertura ao encontro com o outro, de disponibilidade para o outro humano, e para o cumprimento do que Neekhliúdov afirma como sendo a exigência da vida: fazer o que se deve, o que tem que ser feito.

 


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