O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO por Aparecida Bastos Pereira

História de Convivência

O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO - J.D. Salinger

O encontro com Holden me trouxe, a princípio, um reencontro com a minha experiência de adolescência. Inquietação, estranhamento do mundo, das relações e muitas, muitas incertezas. Poderia ter me encontrado com Holden naquele momento e teríamos, certamente, uma boa conversa, autêntica, “séria”, “para valer”!!

Encontrá-lo agora me coloca uma questão, que posso escutar no tom desafiante de Holden: E aí? Você fez o quê com o seu descontentamento adolescente? Manteve-se fiel à sua possibilidade de estranhamento, ou rendeu-se ao “unificado e simplificado”? Holden, o apanhador, parece ter retornado, de algum lugar adolescente, para me cobrar um compromisso com uma lucidez experimentada na minha juventude.

Constato que se eu “vi”, se eu em algum momento não estava tão identificada com o que era estabelecido e determinado socialmente, se eu desconfiei disto e por uma brecha pude vislumbrar outras realidades, esquecer esta experiência, adormecer, seria trair  a adolescente que “se jogou” para segurar a “argola de ouro”, com todos os riscos que este salto envolvia. Holden exige, com bastante vigor, compromisso com esta vivência adolescente!

Nas suas experiências reconheço também os perigos da minha trajetória. Holden, caindo, caindo, vive à beira da loucura e da morte, levando ao limite a sua vivência de estranhamento. Para onde vão os patos no inverno da adolescência? Para onde vai a vida, aquilo que não pode morrer, neste inverno da alma?

Não sabemos qual o destino de Holden. Salinger não nos dá garantia quanto ao seu futuro, que deixa aberto para um “não sei”, para um “como é que eu posso saber?”. Desta forma mantém Holden perpetuado neste lugar adolescente, sem nos oferecer uma resposta segura para os seus enigmas, deixando a sua voz inquietante ressoar perpetuamente, tirando o nosso sossego.

Neste espaço aberto deixado por Salinger quanto ao destino de Holden, penso nos desdobramentos possíveis de uma adolescência povoada de estranhamento. Percebo, reconhecendo os riscos na minha própria história, o perigo de uma saída pelo enlouquecimento, ou o perigo de um retorno rápido e precipitado ao lugar confortável oferecido por um compromisso com os valores socialmente estabelecidos.

Mas o professor Antolini nos aponta outra possibilidade quando sugere a Holden que ao invés de morrer nobremente por uma causa, ele possa dedicar-se a viver humildemente por uma causa.

Posso então reconhecer que não deixei de estranhar e inquietar-me, e que continuo a preocupar-me com o destino dos patos no inverno das relações desprovidas de afeto e autenticidade, e no nosso cotidiano marcado muitas vezes por uma experiência de brutalidade e anestesiamento.

Acompanhando Holden na sua jornada, penso que humanizar é não deixar de estranhar! É não deixar de deslocar-se, de sentir-se fora de lugar em relação ao que é estabelecido como realidade, escolhendo cotidianamente viver com humildade por uma causa.

Aparecida Bastos Pereira

 

 

 

 


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