Névoa e crueldade, por Sandra Aparecida de Araujo

17/03/2015 - Histórias de leitura

O primeiro ponto que me chamou muita atenção, antes de iniciar a leitura,  foi à fotografia do marcador de páginas que veio acompanhando o livro.  Nele nuvens negras pairam sobre um pequeno pássaro (ao concluir a leitura do livro voltei observar a figura para ter certeza que não era uma pequena rã), deixando muito claro que a leitura seria extremamente densa, confusa e cheia de tramas. O que foi se confirmando após ler a apresentação do livro escrita por Rubia Prates Goldani,  “Névoa é um romance escrito em 1907, obra que imortalizou o autor e que até os dias de hoje continua despertando muito interesse. O propósito da obra é arrancar o leitor de seu modo habitual de encarar a vida, fazendo com que encare como problema a própria realidade de sua existência” (Impressionante !!!). E continua  “O romance é escrito utilizando a técnica da duplicação interior, jogo de espelho e o entrecruzamento do real e da ficção” (????, simplesmente perturbador).

 

Mas, como na própria apresentação está escrito “é necessário ter uma fé inabalável no imenso poder da escritura” e fui conhecer a história de Augusto.

O livro foi perturbador, mas em torno de toda essa névoa, um dos capítulos mais comoventes é o V quando Augusto se recorda de sua mãe, Dona Soledad. Que mulher linda! Quantas recordações maravilhosas ela deixou. Isso é o amor. O amor de uma mãe dedicada e amorosa. Sem contar a casa aconchegante com poltronas que abriam seus braços com intimidade de avôs. Acho que esse capítulo me chamou atenção, por ser um dos poucos  que descreve algum afeto.

E outro personagem instigante era o Orfeu, cachorrinho que Augusto batizou com este nome, que nem ele soube o por quê,  como o acaso não existe,  me lembrava de que ele faz parte da mitologia, mas não sabia ao certo sua história. E ao pesquisá-la constatei que foi tão triste quanto à de seu dono.

Ao concluir o romance, me senti como Augusto, decepcionada, desencantada, desiludida e desacreditada do humano.  Doeu dentro de mim quando ele diz “Não é o amor que me dói, é o dolo, a fraude, a burla! Zombaram de mim, me escarneceram, me ridicularizaram! Quiseram demonstrar ... que sei eu? Que eu não existo” (219)

E ai, cresce minha ansiedade para iniciarmos o itinerário. Preciso comentar, ouvir outras opiniões, dividir com as pessoas todas essas experiências, atingindo assim, o objetivo do Labhum, que é a ampliação da espera do ser, dentro de mim.

Itinerário de Leitura

O Itinerário foi muito curto onde estudamos cada personagem e o interessante são os diversos olhares que surgem através de cada participante do grupo.  Por exemplo, eu vejo uma Eugênia diferente das demais opiniões dos meus colegas.  Desde a página 79, no diálogo:

-  O senhor Dom Augusto já está informado de tudo...

- De tudo? De quê? Perguntou Eugenia, com aspereza e com um ligeiríssimo gesto de quem vai se levantar.

- Sim, da hipoteca ...

- Como? Mas o que é isso, o que significa tudo isso, a que vem esta visita?

A partir deste diálogo, senti uma invasão tão grande na vida pessoal de Eugenia, que continuou durante toda história e até o final do livro ela dizia que queria somente a amizade, deixando muito claro, que jamais sonharia o mesmo sonho que Augusto.  Não estou defendendo o que ela fez, mas ela foi sincera desde o início.

O itinerário nos dá a oportunidade de ampliarmos nossa visão, enxergando as coisas por diversos ângulos, uma imagem panorâmica de uma única obra. É fantástico !!!

História de Convivência

Na semana de concluir este trabalho passei por uma experiência semelhante a do nosso personagem Augusto, só que na vida real é muito doloroso, e como machucou!  O mais inacreditável é que vem de onde a  gente menos espera e não estamos preparados para tamanho golpe.

Foi uma experiência horrível e mostrou o quanto o ser humano pode ser cruel e quanto estamos longe de por em prática o primeio mandamento de Deus, que nos pede para amarmos uns aos outros.  Me pergunto ... O que as pessoas vão fazer nos finais de semana nas igrejas, templos, sinagogas ou chamem como quiser ?  Elas somente escutam os sermões e não absorvem absolutamente nada. Desaprendemos a conviver em grupos, desaprendemos a ouvir as pessoas, desaprendemos a olhar nos olhos das pessoas, pois agora o celular não permite, desaprendemos a respeitar a opinião do outro, e dia a dia vamos desaprendendo a dizer “nós” para aprendermos somente o “eu”.  Em outros países os homens estão cortando as cabeças uns dos outros, aqui estamos rasgando a alma, ou seja, a essência do próximo, sem se dar conta disso, pois o ego não permite enxergar os estragos que estamos causando. Está faltando Deus dentro de cada um de nós. Está na hora de por em prática tudo aquilo que ouvimos nos finais de semana em nossas igrejas.

Como o senhor pôde perceber, Prof. Dante, sua missão ainda é muito grande,  pois tem pela frente despertar este lado humano “bom” através da experiência estética do Labhum.  Há necessidade da expansão de mais laboratórios, teoricos e práticos, onde cada um mergulhe dentro de si, reflita e emerja uma pessoa melhor.

O Labhum além de nos causar dependência, pois agora não consigo ler sozinha, também está se tornando meu confidente, neste momento, ao finalizar este relatório, me sinto dentro de uma névoa muito densa, angustiante, atorduante, mas que diferente do nosso personagem Augusto, tenho um grande respeito por mim, pela vida e por Deus, vou levantar, sacudir a poeira, respirar fundo e continuar o meu caminho, pois essa experiência também aprendi no Laboratório,  com o Engenhoso  Fidalgo Dom Quixote de La Mancha !!!

Obrigada, Professor Dante, por mais essa oportunidade.

CURIOSIDADES

Após a conclusão do livro fiquei muito curiosa para conhecer Orfeu, da Mitologia Grega, e ao pesquisar verifiquei que a história de amor de Orfeu foi tão triste quanto de Augusto.

Orfeu era o poeta mais talentoso que já viveu e médico. Quando tocava sua lira os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Acalmava as brigas que aconteciam no navio com sua lira. Seu canto silenciava as sereias, responsáveis pelos naufrágios de inúmeras embarcações.

Orfeu apaixonou-se por Eurídice e casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Ele a perseguiu e tentando escapar, ela tropeçou em uma serpente que a mordeu e a matou.

Orfeu ficou transtornado de tristeza. Foi procurar Hades, o rei dos mortos, no mundo inferior, que se comoveu ao ouvir a música de Orfeu e atendeu seu pedido de trazer Eurídice do mundo dos mortos. Mas com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol.

Orfeu partiu por uma trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone, sua esposa, os seguiram e como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente.

Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma, seu grito final de amor e pena não mais do que um suspiro na brisa que saia do Mundo dos Mortos.  Ele a havia perdido para sempre.  Em desespero total, Orfeu se tornou amargo.

Um dia, um grupo de mulheres selvagens chamadas Mênades, caíram sobre ele, frenéticas, atirando dardos conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, e ela flutuou, ainda cantando, Eurídice! Eurídice!

Dizem que, desde então, os rouxinóis das proximidades cantaram mais docemente que os outros. Pois Orfeu, na morte, se uniu à sua amada Eurídice.”

Conclusão

Concluímos mais uma obra literária e o sentimento é sempre o mesmo, de tristeza por ter terminado e de alegria,  por saber que temos outras grandes obras pela frente.   E já estou me preparando para o próximo!!!

 

Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde – CEHFI
Universidade Federal de São Paulo
Laboratório de Humanidades
Ciclo I (1º semestre de 2015)
Tema:  Em meio à névoa, o Humano
Livro:  Névoa, de Miguel de Unamuno
Aluna:  Sandra Aparecida de Araujo
28/04/2015

 


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