Como se de repente não tivesse nada o que dizer, Ressurreição, por Licurgo Lima de Carvalho

Apesar de ter gostado imensamente de ler Ressurreição, de mais uma vez ter me rendido à genialidade do Tolstói, e participado com enorme prazer de todos os encontros do Laboratório de Humanidades que discutiu o livro, confesso que fui para as Histórias de Convivência sem muita vontade de falar, me sentindo esvaziado, como se de repente não tivesse nada o que dizer. Mas mesmo assim, lutando contra esse “nada”, na hora certa eu estava no LabHum pronto para ouvir e sentir.

 

Então, na medida em que os participantes começaram a contar suas histórias de como foi conviver com o príncipe Nekhliúdov, com Máslova, e, sobretudo, como reagiram diante da nova proposta de vida que Tolstói vai, aos poucos, nos apresentando, eu mesmo fui, mais uma vez, me dando conta do privilégio que é participar de um grupo que se debruça semanas sobre uma única obra, aparentemente para discutir e tentar compreender a história de seus personagens, mas que ao fazer isso, não somente obriga a pessoa a refletir sobre a própria vida, como transforma o ato da leitura numa experiência marcante, tornando o livro inesquecível.

Ouvindo a turma falar fui também me lembrando de que a leitura e discussão do romance me fizeram perceber o quanto estamos sujeitos ao que Hannah Arendt chamou de a “banalidade do mal”, onde pessoas, acreditando estar cumprindo um dever, ou porque respondem a ordens superiores numa lógica burocrática, praticam males terríveis sem refletir minimamente sobre o alcance de atitudes corriqueiras, movidos por motivos fúteis como subir na carreira profissional, por exemplo. Do mesmo modo, fiquei impressionado pela estratégia narrativa que Tolstói construiu para nos fazer refletir sobre o valor absoluto da vida humana, quando, no romance, os condenados são conduzidos ao desterro na Sibéria em condições degradantes e inumanas. Esse trecho do livro me fez pensar que nada justifica desqualificar a vida, que nada justifica tratar o mal com um mal ainda maior.

Outro ponto marcante da minha leitura, trazida também pelo grupo, foi a crítica que o livro faz às instituições religiosas. De certa forma, ao descrever uma missa no presídio, Tolstói fez com que eu me sentisse de alma lavada, pois expressou exatamente o que eu já havia pensado tantas vezes, isto é, que o sagrado pode sim ser alcançado pela religião, mas que a religião não pode e não deve ser tida como a única maneira, ou a forma privilegiada, de experimentar o sagrado. E é nessa lógica que se desenrolou a jornada de Nekhliúdov, uma vez que o príncipe foi rompendo com todas as instituições para finalmente encontrar o verdadeiro sentido de Deus em sua vida, ou seja, que qualquer movimento em direção à vida espiritual só faria sentido se ele perdoasse, fosse compassivo e se colocasse a serviço do bem, indistintamente.

E por falar em fazer o bem, outra questão importante foi enxergar, por meio das atitudes de Nekhliúdov, a minha anestesia e indiferença em relação ao sofrimento das pessoas, ao mesmo tempo em que refleti, junto com o grupo, sobre os limites do quanto realmente é possível, humanamente, praticar o bem. O fato é que a coragem e determinação de Nekhliúdov em ajudar as pessoas, ainda que isso pudesse significar mais sacrifícios e desconfortos, é inquietante. Durante a leitura, muitas vezes me vi colocado contra a parede, pois parecia que Tolstói, por meio de seu personagem principal, não perdia a oportunidade de me dizer: “tome uma atitude”, “dedique-se mais ao outro”, “pare de olhar tanto para o próprio umbigo”, “existem pessoas que sofrem e precisam muito de sua ajuda”.

Coroando assim os muitos afetos que sofri durante a leitura e discussão desse livro no Laboratório, trago uma reflexão que fizemos sobre o percurso de Máslova. Lembro-me que já nos últimos encontros alguém perguntou: “mas o que teria, afinal, desencadeado a transformação de Katiucha?”. Dentre as muitas hipóteses levantadas, para mim uma se destacou especialmente: “Ela saíra da posição de vítima!”. Dias depois, ao me desentender com uma amiga, percebi que eu também, assim como Máslova, somente me salvaria daquela situação repetitiva e desgastante se deixasse de assumir o papel da eterna vítima. E acho que tenho conseguido!

E como fiz nas Histórias de Leitura, não quero terminar sem dizer que para mim Ressurreição sempre será o livro com as melhores primeiras linhas da minha vida, pois eu nunca havia lido um romance cujo primeiro parágrafo fosse tão maravilhoso. Ao descrever a natureza renascendo depois de um rígido inverno, Tolstói coloca que “as pessoas crescidas, adultas”, “que não paravam de enganar e atormentar a si mesmas e umas às outras”, “achavam que o sagrado e o importante não era aquela manhã de primavera, não era aquela beleza do mundo de Deus”, “mas sim que o sagrado e o importante era aquilo que elas mesmas inventaram a fim de dominarem umas às outras”. E então, “na secretaria da prisão provincial”, onde “o importante e o sagrado era uma folha de papel”, a história se inicia para que tomemos consciência do quão banal pode ser o mal e da força que é preciso ter para ressurgir das pedras.

LABORATÓRIO DE HUMANIDADES: A POSSIBILIDADE DO HUMANO
RESSURREIÇÃO (Liev Tolstói)
2º Semestre de 2015

RELATO DE EXPERIÊNCIA, por Licurgo Lima de Carvalho

 


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