Por quê que os homens castigam seus próprios semelhantes?

Aluna: Natália Muehringer Alves Pioli
Pós graduação em Biologia Molecular

Reflexão sobre a obra de Liev Tolstói: Ressurreição

Ressurreição é uma obra extremamente crítica e embora digam que é um romance, na minha concepção, ele vai muito além disso, ele retrata como foi dito nas aulas, uma experiência de vida do autor, onde se é abordado com profundidade as questões éticas e morais da "sociedade" que somos nós mesmos em relação aos princípios de justiça e religião. O autor retrata com muitos detalhes todas as sensações e sentimentos vividos da forma mais profunda pelo personagem principal, o príncipe, e suas questões com seu "eu" interior. O personagem encontra-se em um estado constante de perturbações íntimas ao tentar se decidir sobre o que é certo e errado.

 

O príncipe é de uma família aristocrática e durante a sua adolescência, prevalecia sua índole pura. Nesta época ele conheceu Katiucha ao visitar suas tias na fazenda durante suas férias de faculdade, por quem viveu um amor platônico, ingênuo e puro. Ela era uma moça de família humilde, praticamente órfã e que foi criada por 2 amas. Anos depois, o príncipe volta à fazenda de suas tias, mas dessa vez, ele já estava contaminado pela maldade das pessoas, pelo jeito mais fácil e cômodo de resolver as coisas, já tinha feito parte da vida militar e com todo aquele cenário de maldades, egoísmo, vaidade, já não podia ser mais o mesmo de anos anteriores. O príncipe ao rever Katiucha, fica totalmente "embriagado" pelo desejo de satisfazer seus desejos. E assim foi feito. Ele ao ir embora ofereceu à ela cem rublos e ela sentiu-se totalmente usada e abandonada. Essa foi a primeira passagem de mudança de Katiucha, uma menina doce e inocente para uma moça amarga, de poucos valores, preferindo se prostituir para manter a vida agradável que tinha quando vivia na fazenda das suas amas. Percebe-se ao ler o livro de que havia 2 homens dentro do príncipe, 1 espiritual marcado pela sua adolescência e que dentro dele essa tendência insistia em prevalecer, e 1 animal imposto pela sociedade, onde o ato do que era errado era o normal. Anos se passaram e o príncipe ao tomar parte de um júri, reconheceu-a como ré, era acusada de um assassinato. Porém ao ver que ela foi condenada injustamente pelo júri e todos que ali faziam parte, não tomou nenhuma atitude para impedir. Foi quando houve uma grande retrospectiva de tudo o que ele já havia feito àquela moça, que havia seduzido em seus anos moços, engravidado e que posteriormente teria caído na maior abjeção da sociedade devido às suas atitudes. Sentindo-se culpado por aquilo, resolveu redimir seu pecado querendo casar-se com ela e livrá-la da condenação. A partir daí, o príncipe passa por cima de todas críticas, da forma de viver das pessoas a sua volta, de todas dificuldades em relação a se fazer justiça e principalmente por cima de si mesmo, onde vive o início de uma profunda transformação interior. No começo e meio do livro, o príncipe vive sua transformação íntima baseada na ideia de se redimir com Katiucha. Já no final do livro, pode se reconhecer que o personagem assume sua transformação baseada somente em seu próprio bem-estar, e não mais atribuída a alguém.

O livro é um retrato do que o autor Liév Tolstói vive na Rússia, hipocrisia social, egoísmo, a forma brutal de punir as pessoas, defeitos no sistema penal e muito mais. Durante o livro percebe-se que o autor propõe o tempo todo formas de solucionar todos esses problemas com base na religião e transformação nas condutas morais. Pode ser sentido como as vivências descritas no livro ainda se encaixam perfeitamente com o modo de viver das pessoas na atualidade. Bem no começo do livro ficava difícil de entender o por quê do termo "Ressurreição", agora vejo como esse termo se encaixa perfeitamente com a história toda. Além da Ressurreição representar a época em que o príncipe conhece Katiucha na Páscoa, "Ressurreição" é a transformação interior tanto do príncipe quanto da Katiucha. Ao longo da sua jornada para salvar Katiucha, ele também ajuda diversas pessoas que também foram presas injustamente e até doa suas terras para os mujiques. No final do livro, o príncipe após conseguir um indulto, Katiucha é libertada e casa-se com seu companheiro de prisão, Simão. Neste momento o príncipe começa sua reflexão sobre o por quê que os homens castigam seus próprios semelhantes? E então ele procura suas respostas na religião, de onde vem todos os preceitos do que é certo e ético e propõe isso como lema de vida. Essa é de verdade a profunda transformação íntima do personagem.

Na minha opinião, este livro é verdadeiramente inspirador. A forma como o autor aborda todas soluções para os maiores problemas da sociedade é válido para hoje e o futuro também.

As experiências vividas durante as aulas foram  únicas para mim, me inspiraram, me fizeram refletir sobre minha vida, sobre minha conduta, sobre a forma como somos hipócritas em falarmos dos outros e não olharmos para nós mesmos, em nossa dificuldade de vermos nossos defeitos e melhorarmos, em botar a culpa de todos os problemas sociais na "sociedade". Cada um de nós faz parte da sociedade, todos nós igualmente temos o dever de fazermos a nossa parte, de fato e verdadeiramente levantarmos e botar em prática as questões morais e éticas de que tanto estamos cansados de saber.

 

 


Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde - CEHFI
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
Ministério da Educação

Rua Loefgreen 2032, Vila Clementino, São Paulo, SP.

Fones: 55-11-55764848 ramal 2533 / 55-11-5084-8582