A necessidade do amor em nossas vidas

Relato de experiência de Ana Carolina Anauate Pereira sobre o ciclo do O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

Quando li pela primeira vez essa obra, no colegial, não consegui entender o porquê de essa história ter fascinado outras pessoas, tive a impressão de que não havia um clímax da narrativa e por isso não gostei da história. Estava curiosa sobre o que iria ser discutido nos encontros e o que poderia estar relacionado à humanização.

 

De início Holden me pareceu um personagem infantil, mas durante as histórias de leitura no primeiro encontro ouvi versões diferentes, muitas pessoas acharam Holden muito maduro para sua idade (16 anos). Fiquei pensando depois do encontro por que eu achei Holden imaturo, até fiz uma tabela para as características infantis e adultas: Holden parece adulto pois transparece muita experiência de vida e uma capacidade incrível de crítica, ao mesmo tempo porém parece ser infantil por não dar valor a nada, ele mente muito, só faz o que tem vontade, tem raiva de tudo e está sempre inconformado com o mundo. Eu não sou psicanalista, mas a meu ver essas características podem se confundir com sintomas de depressão, mas não acho que é o caso de Holden, depressivos não conseguem ter vontade de fazer as coisas e muito menos realizá-las. Holden parece um adolescente diferente que não se encaixa em lugar nenhum, não se conforma com a falsidade das pessoas e do sistema do mundo. Não conseguir se encaixar em nenhum lugar, não conseguir encontrar alguém com quem se possa ter uma conversa sincera e autêntica, não conseguir encontrar alguém que possa te dar um rumo para resolver nossos problemas é muito desconfortante.

Tudo que foi discutido nos itinerários de discussões foi interessante, os conflitos internos do personagem, a sua busca por algo que nem o próprio Holden sabia o que era e principalmente encontrar os símbolos distribuídos pela narrativa e seus possíveis significados. Para uma aluna de um curso de biológicas, que analisa tudo da forma mais direta possível, entender o significado desses símbolos foi surpreendente, por exemplo, o nome do personagem principal, a luva de beisebol, os patos, a iminente queda no lago ou do meio fio da calçada, o campo de centeio, a mão machucada do desabafo de um sentimento não revelado, as crianças, o museu, a insônia e os sentimentos contraditórios.

Afinal, o livro se mostrou digno para discutir a difícil busca da identidade, principalmente para um indivíduo tão complexo como Holden, cheio de personalidade e de conflitos sentimentais, além de uma necessidade de humanização própria e dos outros (que escondem seus sentimentos na falsidade e na futilidade social). A narrativa inteira é um conflito gerado pela confusão existencial de Holden. Holden encontra-se em uma iminente queda, ele procura alguém que o agarre, um interlocutor que revele a dor que ele sente ou que a nomeie e que o ajude a entender o que se passa com ele, uma referência que o oriente. Holden busca alguém que compartilhe da sua angústia e da sua fragilidade. Ele busca honestidade e autenticidade, o humano em si mesmo e no outro.

Na primeira leitura desse livro, há alguns anos, eu não me identifiquei com o personagem, acredito que na minha adolescência eu ainda não estava preparada para definir o que eu achava certo ou errado, o que eu gostava muito e o que eu sentia raiva. Porém, lendo novamente para as discussões do Laboratório de Humanidades nesse semestre eu me vi no Holden, uma pessoa crítica, mais seletiva em relação à personalidade das pessoas com quem eu convivo e em relação ao sistema social. Acho que tive sorte de ter desenvolvido essas questões em um prazo mais longo do que o de Holden, talvez por isso eu não cheguei perto de ter um colapso existencial como ele.

A leitura desse livro nos permite encontrar o humano em nós mesmos, nos ajuda a identificar as questões humanas presentes em todos nós e até mesmo nos fazer duvidar da nossa própria existência, para nos fazer refletir sobre a necessidade do amor em nossas vidas e sobre o que realmente queremos ser.

 


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