A Névoa Racional

Relato de experiência de Ana Carolina Anauate Pereira a partir da obra Névoa, de Miguel de Unamuno

Iniciei a leitura do livro Névoa com uma grande expectativa, tinha certeza que o livro seria ótimo, tanto como literatura como uma experiência pessoal inesquecível. Ao longo da leitura, percebi que não estava apreciando a história do jeito que eu esperava, tanto é que demorei muito tempo para ler, estava na metade da história quando os itinerários de discussões começaram. Entretanto, logo que as discussões começaram, elas foram maravilhosas.

 

Como aluna de um curso da área de biológicas, eu instintivamente analiso objetivamente problemas e soluções de diversos tipos, mas percebi, desde a leitura da obra A História sem Fim, que tenho muita dificuldade em entender os sentimentos, as críticas e as problemáticas humanas transmitidas na literatura, e me parece que no Laboratório de Humanidades são questões obvias que os participantes do grupo conseguem reconhecer com facilidade ao longo da leitura. Dessa forma, as discussões são espetaculares para mim, pois passo a entender o que o autor queria transmitir e sempre me pego perguntando “Como não percebi isso antes?”. Logo que o primeiro itinerário de discussão terminou fiquei curiosa em saber como seria o resto da história, apesar dos spoilers, e queria ler o restante para conseguir ver o que o resto do grupo estava vendo na história.

Logo que comecei a leitura, fiquei desconfortável com o jeito racional de Augusto de ser. Imagine se cada vez que precisamos abrir um guarda-chuva nós ficássemos pensando e racionalizando igual a ele... A chuva já teria parado e ainda estaríamos pensando se deveríamos tê-lo aberto ou não. Depois, Augusto tenta dar um rumo para sua vida, então resolve se apaixonar, inconscientemente, então, ele vê os olhos de Eugênia pela primeira vez e se sente apaixonado, acredita ter encontrado a mulher de sua vida. Mas ele não fica realmente apaixonado, ele se apaixonou pela ideia de estar apaixonado e fica mais interessado em entender o que ele mesmo sente do que se deixar levar pelo sentimento, a ponto de nem reconhecer o objeto de seu amor quando passa na sua frente. Mas a questão é maior do que dar um rumo na sua vida, ele precisa de alguém, de uma alma, para sentir que ele realmente existe e dar um sentido pra sua vida, ele está imerso em uma crise existencial, busca uma identidade, e quando percebe que ele já tem uma identidade, mesmo que definida por outro, pelo seu criador, é tarde de mais. Ele deveria ter seguido as dicas de Vitor, deixar tudo se confundir, aceitar sua incapacidade de determinar sua própria existência e simplesmente ser uma rã. Mas ele preferiu um caminho mais fácil. Como o homem é complicado...! Como as relações humanas são complexas...! Já são complicadas de mais e nas mãos de um ser tão racional como Augusto elas deixam qualquer um louco.

A história nos faz pensar em muitas questões humanas e em muitas características da vida moderna, nós tentamos tanto ser alguém que não conseguimos perceber que nós já somos, insistimos em viver os problemas futuros deixando de lado os acontecimentos do presente.

Conseguir interpretar o que o autor quis passar aos seus leitores na sua obra é muito difícil, e é um dos motivos que pelos quais o Laboratório de Humanidades me encantou, a possibilidade de, a cada leitura, conseguir refletir sobre as questões humanas da vida, da minha vida. Qual é a minha verdadeira vontade? Qual “eu” eu quero ser?

 


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