Ele não teve ninguém para segurá-lo...... ele está caindo.....

Relato de experiência do Livro: O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

VALÉRIA DA HORA ACQUILINO LISBOA

mestranda – Mestrado Profissional Oftalmologia e Ciências Visuais

Esta foi a minha primeira participação no Laboratório de Humanidades. Inicialmente fiquei um pouco apreensiva em participar deste laboratório, uma vez que não tenho costume de ler.  No primeiro encontro ainda não tinha lido o livro e quando comecei a escutar o relato de algumas pessoas que já o haviam lido, fiquei curiosa em lê-lo, pois as opiniões divergiam e portanto senti a necessidade de saber qual seria a minha. Iniciei, naquele mesmo dia a leitura, que no início, confesso,  achei um pouco chata, um adolescente crítico e reclamão de tudo e de todos. Usava sempre uma expressão no livro que me incomodava “TUDO QUE O VALHA”, me cansou um pouco ler essa expressão, não via necessidade de ser colocada sempre essa expressão, mas ao longo dos encontros comecei a ter outra visão do livro e do que eram esses encontros; cada pessoa falando, dando suas opiniões, comecei a me envolver e querendo terminar a leitura o quanto antes. O personagem me passou ser um adolescente sozinho, perdido no mundo, sem  a atenção e carinho de seus pais, a única pessoa que o entendia e se preocupava com ele era sua irmã mais nova, Phoebe. Uma pessoa tomada pela sombra da perda de seu irmão, um adolescente em busca de seu auto-conhecimento, querendo gritar para o mundo, e  ao mesmo tempo pessimista, crítico com os colegas da escola, que tinha nojo de tudo e de todos, mas conservador, com valores morais, caráter, carinhoso e preocupado com as crianças e com os mais necessitados.

 

A obra me fez pensar um pouco na criação de nossos filhos, hoje sou mãe e consigo pensar de uma forma diferente do que pensava há seis anos atrás (idade do meu filho). Penso que nós pais temos sempre que estar do lado dos nossos filhos, procurar sempre o diálogo, carinho e atenção, independente do que possa vir acontecer em nossas vidas; filho é preocupação, responsabilidade para sempre. Tive a impressão que faltou muito o afeto, companheirismo dos pais em relação ao Holden. Penso que não existe dor pior no mundo do que a perda de um filho, mas se você tem outros, é necessário se voltar a esses até de uma maneira mais intensa do que antes, acho que isso faltou muito na família, os pais simplesmente o colocaram em colégios internos, a preocupação era só de se passar de ano, mas o sentimento do filho não me pareceu ser preocupante para os pais.

Essa leitura me fez voltar um pouco a minha infância/adolescência, tive um pai de muito papo, às vezes até chamado de moderninho para a época, mas essa modernidade e confiança do meu pai nos fez crescer, passar pela adolescência de uma forma saudável. Tive a oportunidade de aproveitar a minha adolescência, sair, namorar, brincar, curtir, pois tinha apoio, esclarecimentos em casa. Claro que não passei pelo problema que o Holden teve, a perda do irmão, mas passei pela separação dos meus pais, que na época para mim foi um problema, éramos uma família alicerceada, tínhamos amor um com o outro, coisa que não vejo na família do Holden.

Gosto muito da passagem do livro quando conta a sua irmã o que gostaria de ser “Apanhador no campo de centeio”.  Ele quer segurar aquelas crianças na beira do abismo para não deixá-las cair, ele quer ajudar o outro. Ele não teve ninguém para segurá-lo...... ele está caindo.....

 


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