DISSIPANDO A NÉVOA - por Robério Alves

Li "Névoa" (de Miguel de Unamuno) em dois dias, e fiquei "enevoado" em quatro. Acompanhei a vida ingênua de Augusto Pérez com seus descobrimentos amorosos, e jamais imaginava que ele pudesse se encontrar com o seu próprio autor. Até então aquele rapaz me parecia tão real! Quando este encontro aconteceu, tive a sensação de pisar em vão, e cair sem fundo. Lembrei-me do Salmo 139 versículo 16, que dizia ter Deus escrito em Seu livro todos os dias da minha vida, quando ainda não havia nenhum deles. "Sou uma personagem de ficção, como Augusto?". Lembrei-me da frase "o mais concreto em mim é abstrato". Entrei na névoa. E o nevoeiro ficou mais intenso quando tentava conciliar este livro com um laboratório de humanidades. O que pode haver de humanização no desespero do suicida?

 

E começou o itinerário de leitura. E o niilismo que havia enxergado no embaçamento da névoa foi, aos poucos, transfigurando-se em forma de amor e dor, paradoxos inevitáveis e necessários para o crescimento de Augusto. Comecei a ver com nitidez inesperada o fracasso do eu definido por mim mesmo e do controle sobre as escolhas. O homem que se depara com sua condição precária está mais próximo de ser redimido. E a vontade de viver é o desejo daqueles que descobrem ser livres. Sinal de maturidade, sinal do sabor agridoce que a identidade deixa na boca. E Augusto ficou demasiado humano!

No final, a leitura de todos humanizou minha leitura. E humanizou um pouco mais a minha vida. Senti-me humilhado. Não aquela humilhação que envergonha, e sim a que me devolve ao "húmus" da sensatez e da serenidade. Saí do último encontro com a agradável sensação de não entender nada. O mistério não me embaraçou os pés, apenas os fez caminhar com mais reverência. Subi a Pedro de Toledo como uma "rã" tranquila e feliz. Fiz as pazes com os meus limites...

Robério Alves

junho de 2015

 


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