Às vezes, é necessário ir até as profundezas, por Clarissa Carvalho Fongaro Nars

Relatório de Encerramento Labhum - “Os Irmãos Karamázov” F. Dostoiévski
Clarissa Carvalho Fongaro Nars   
Dezembro de 2013

Às vezes, é necessário ir até as profundezas, para se perceber algo que parece tão próximo e tão evidente... È com esse primeiro pensamento que me veio à cabeça que inicio um pequeno relato sobre minha participação no Labhum deste semestre.

 

Tentarei me explicar. Chega ao fim mais um ciclo e embora já familiarizada com a metodologia do Labhum - Histórias de Leitura, Itinerário de Discussão e Histórias de Convivência - e com os efeitos que proporciona, não deixo de me surpreender com o que ela me causa.

Neste sentido, muitas foram as reflexões no itinenário de discussões dos Irmãos Karamázov e muitos poderiam ser meus comentários nesse relatório, mas prefiro deter-me sobre este enigma, sobre isso que sempre me surpreende ao participar do Labhum, semestre após semestre. Chamo essa sensação de enigmática, pois como trabalhadora do campo da saúde, percebo: quando menos espero, “saio” com uma resposta diferente, algo um tanto transformado, novo, inusitado e nitidamente relacionado às discussões que temos nos encontros.

Algo que me soa bastante caro, pois é como trabalhadora da saúde, que penso ser preciso reinventar a prática dia-a-dia!

E então, a obra: as profundezas ‘karamazovianas’ fizeram-me perceber características humanas que andavam passando despercebidas na prática cotidiana. Por isso, digo: características tão próximas, mas ao mesmo tempo, tão distantes.

Com os Karamázov, pude refletir por exemplo, sobre a compaixão. Certamente, houve aí uma aproximação... Sem eles - o pai e três (ou quatro) filhos -, eu não teria pensado na compaixão, pelo menos por ora.

Mas para quem trabalha na área da saúde, cada vez mais estou certa, a hora é agora! O tempo é sempre o tempo da urgência, tempo da emergência. Não há o que esperar...

Foi na urgência do dia-a-dia, que um interessante fato aconteceu. Já atrasada para um dos encontros do Labhum, tenho uma conversa ‘de corredor’ com uma colega de trabalho, que em tom de desabafo, me diz “é necessário ter compaixão Clarissa, com-pai-xão”. Apressada que estava, não dei atenção àquela fala e qual não foi minha surpresa, quando no encontro, falamos justamente sobre o tema da compaixão.

Qual não seria minha transformação se não fossem essas discussões, essas reflexões, quase em tempo real, entre a profissão e o drama de tantos pacientes? Se não fosse a convivência, itinerário que não se dá isoladamente, tanto lá (na prática), como aqui (no Labhum)?

Assim, é que algo que parece tão evidente - a compaixão na área da saúde, por exemplo -, tem seu sentido novamente iluminado. A convivência entre vários, tanto lá, como cá mostra que aquilo que parecia distante, pode então ficar mais próximo. Isso me faz pensar que algo da convivência ajuda a humanizar!

É com mais essa reflexão que encerro o semestre. Ao se ouvir o singular, ao se ouvir opiniões diferentes de cada um, também se está humanizando. Chego aqui, ao ponto máximo que levo da obra de Dostoievski, que ligado ao tema da compaixão, deixa-me mergulhada no enigma: o tema do “amor ativo”.

Como ativar o amor? Como praticar o amor no “um a um”, com aquele que não suportamos e está ao nosso lado? Ou mesmo com aquele que suportamos e por amarmos demais, queremos que seja da maneira perfeita e ideal?

A chave parece ser a da escuta. Tentando escuta-lo...

No entanto, não quero achar as respostas agora. Quero permanecer com o desafio. O tema do amor não cessa ...

Fica assim, aquela sensação de pesar pelo término da discussão da obra, mas não resta dúvida: a “leitura” do livro não acaba só porque se chegou até a última página dele.

 


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