Os Irmaos Karamázov (de Fiódor Dostoiévski): história de convivência, por Maria da Graça Azenha Bautzer dos Santos

(da turma de terça)

Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.
Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha...
Paulo Leminsk
“...tendo perdido a mãe mal completara três anos, guardou-a na memória pelo resto da vida, seu rosto, seus carinhos, “como se ela estivesse viva à minha frente”. Lembranças como essas podem ser conservadas ( e todo mundo sabe disso) desde a mais tenra idade, até desde os dois anos, mas durante toda a vida só se manifestam como uma espécie de pontos de luz saídos das trevas, de um cantinho de um imenso quadro que se apagou e desapareceu por inteiro, excetuando-se apenas esse cantinho.”
Sobre as memórias de Aliocha, p.33.

Comecei a leitura com voracidade e gana, pensando em vencer rapidamente tamanho calhamaço. Nunca duvidei da  minha capacidade de dar conta desta tarefa com tranqüilidade.

Não demorou muito para que me invadisse um estranhamento inusitado. Fui perdendo paulatinamente o controle sobre o já lido, enovelando-me na urdidura de uma tessitura complexa.

Sentia-me perdida nos eventos da narrativa e passei a reler para me apropriar do que me passara despercebido. Inútil tentativa. Reduzi então as pretensões, tentando ler e buscar o sentido livro a livro.

Isso não resolveu meu problema: continuou a sensação de estar perdida. Desisti de me achar. Escolhi  (será que escolhi?)  ficar perdida para poder continuar a tarefa. Afinal, havia a lição de casa a ser apresentada.

Mais tarde, lá no final do segundo volume é que fui entender. O impacto da escrita dramática de Dostoievski, sua envergadura e profundidade, a capacidade de afetar o leitor, a emocionante narrativa da tragédia daqueles personagens, nos coloca em contato  com  nossa própria ambigüidade.E isso não é fácil.

Foram inúmeros os temas e afetos que me tocaram e trouxeram conteúdos novos para minhas próprias questões.

O potencial explosivo e trágico de Ivan, a sua lucidez árida, a racionalidade desconectada do coração, o desespero de um mundo concebido sem imortalidade e sem Deus me tocaram particularmente.

O destino dado a ele por Dostoievski, como o parricida manipulador, contrasta com o destino do herói Aliocha.

É ele que carrega a solução dos enigmas a serem desvendados pela aventura humana: o amor ativo e encarnado, o investimento na solidariedade aos homens, já que “somos culpados por tudo e por todos”,  conectados  que estamos uns aos outros.

É ainda de Aliocha o bálsamo que poderá mitigar o sofrimento humano: o investimento na relação sem preconceitos com o outro e a coragem de viver suas próprias diferenças e idiossincrasias, na recusa à alienação de ser como todos.

Tudo isso numa situação particular de leitura.

Nossa leitura compartilhada, com a proposta  de fugir dos parâmetros analíticos da academia, demora um pouco a engrenar no percurso de cada grupo.

É a obscuridade de um caminho novo, que exige de cada um a busca de si mesmo, a exposição de seus afetos e, portanto, de suas fragilidades.

Mas a condução do grupo, segura, poética e paternal  e os demais leitores,constroem a rede de sustentação que nos ajuda a provar  resultados, para lá de compensadores: a procura reflexiva de temas que conduz às dimensões mais profundas e pessoais de leitura,contaminada  sempre pela leitura do outro.

O modo de ler indicado e conduzido pela proposta da disciplina e a forma de compartilhar a leitura, enriquecem, inquietam e sempre me levaram a sair diferente após cada encontro, pela ampliação da consciência, pelo ganho do repertório para nomear sentimentos e situações subjetivas, pela ampliação da capacidade de ver e interpretar a mim mesma.

A participação neste grupo foi para mim transformadora: a experiência estética da leitura de clássicos, compartilhada e sustentada pela rede do grupo, ainda me remeteram a uma experiência infantil preciosa.

Minha melhor lembrança da infância: ouvir a leitura feita pelo meu pai, dos livros de histórias de Monteiro Lobato.

Os ecos da sensação de plenitude são aqui reeditados: só o compartilhamento abre essa porta, o que oportunizou para mim o oxigênio e a revitalização das boas lembranças, a contribuição final de Aliocha para nossa vida comesinha:

“Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda da infância, da casa paterna. Muito vos falam de vossa educação, mas uma lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor educacao. Se o homem traz consigo muitas dessas lembranças para sua vida, está salvo para o resto da existência. Mesmo que guardemos apenas uma boa lembrança no coração, algum dia só isto já nos poderá servir de salvação.” Pag. 996.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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