Dom Quixote e os relatórios - Relato de Claudia Masur de A Carlini

Relatório da participante Claudia Masur de A Carlini (Relato de convivência)

LabHum: Dom Quixote (1º sem. de 2014)

LabHum X Relatórios FAPESP, relatórios Plataforma Brasil, relatórios Comitê de Ética, relatórios para o departamento, relatórios para o orientador, relatórios com as pendências dos relatórios, relatórios, relatório, relatóri, relator, ralato...ops, agora sim!!! 

Relatar minhas experiência no LabHum...Hum, vamos lá: No início a desconfiança:

•“Posso simplesmente falar o que penso sem ter que citar uma referência (particularmente uma sensação muito libertadora)?”.

• “Tudo bem dizer que achei muito chato o início do livro e que só me empolguei após o discurso da Marcela?”;

•“Será que posso contar que às vezes pulava algumas partes dos capítulos?”;

Confesso que “transgredi” me fez bem! Linhas muito retas fazem com que a gente não perceba o que está ao lado!

Depois a insegurança”:

•Ai...está me parecendo meio óbvio - lugar comum - a minha fala!”;

•“Hum, depois do que ela disse não tenho coragem de me expor”.

•“Nossa, a discussão está muito “intelectualizada”....melhor não falar nada”.

E finalmente...

Aceitação!!!!

Não me restava outra opção a não ser relaxar e interiorizar um simples “sim”. SIM, está tudo bem dizer que foi chato demais ler as 130 primeiras páginas do livro. SIM, está tudo bem dizer ao Prof que não foi possível ler 100% do capítulo. SIM, está tudo bem falar algo que beire a cafonice de “tão lugar comum”!!

Difícil acreditar que dentro da UNIFESP tenha um espaço arejado como o LabHum. Algumas discussões pareciam verdadeiras terapias de grupo, como gosto de terapias, tal comparação não me incomoda! Muitas vezes ao ir para a aula pensava: “ufa, tenho uma hora e meia para falar do “meu referencial teórico” que graças a deus não está descrito em lugar nenhum!”.

O meio acadêmico cobra de nós o saber “lattes” e esquece que o nosso maior saber está em nosso “currículo oculto”. Acho que o LabHum entra aí!!

Foi difícil para os “acadêmicos” presentes discutir Dom Quixote sem tentar encaixá-lo em algum “CID”. Em muitos momentos a discussão girou em torno das inúmeras possibilidades de transtornos “Domquixotonianos”. O Prof. Rafael tentou trazer o debate para outras questões do livro- não são poucas- mas sempre alguém voltava com a fala: “mas ele é louco”. Tal comentário em geral era de alguém da Universidade, já as pessoas que vinham de fora não se prendiam as “academicices” e as discussões fluíam melhor, certo eles!!!

Chegou a tal ponto que certo dia sonhei com a seguinte situação: O Prof. Rafael era psiquiatra e perguntava: “Quero que vocês tragam na próxima aula os medicamentos que vocês gostariam de prescrever ao Dom Quixote. Depois vamos debater as razões de tais escolhas e discutir qual a melhor conduta terapêutica”...cuidado com as interações medicamentosas!”

Depois de uma discussão intensa sobre “leituras e correlatos” sonhei novamente: Mediei um grupo focal com os personagens do livro onde o “eixo” principal do debate foi: Existe diferença entre ler exaustivamente livros sobre cavalaria e artigos científicos?.  Acordei sem saber o que aconteceu, mas creio que de uma forma geral as pessoas diriam que não há diferença! Em minha opinião os artigos podem ser mais perigosos!

De acordo com minhas possibilidades encaixei as leituras e discussões na prática do meu trabalho onde é possível realizar observações que fogem ao “pré- estabelecido”. Acho que parte de nós encontrou um espaço para compartilhar ideias e angustias mesmo que por alguns momentos tal exposição tenha causado desconforto.  Às vezes nos “perdíamos” nos distanciando do “foco” da discussão, mas creio que valeu a pena. Estes pequenos escapes de certa forma ilustram o que tratamos e para nós estudantes creio que foram: “nossos pequenos espaços de autonomia para agir como o que nos parece correto de acordo com nossos valores e/ou interesse”.

Posso dizer que o LabHum me ajudou muito durante a construção do meu manuscrito que se “transformou” em um artigo....em parte tal “transformação” foi possível por eu  estar em um espaço produtivo de discussões onde podíamos dizer: As coisas tem muitos jeitos de ser, depende do jeito que a gente vê (Jandira Masur em “O Frio Pode ser Quente”)”. Zila minha orientadora e grande amiga falava: “Depois da aula do LabHum vem!” , referindo-se a minha inquietação com os dados. De fato, se eu coloco uma variável aqui e outra ali eu posso ver um “moinho”, mas se a variável que estava “ali” vai para o lugar da que estava “aqui” talvez seja possível ver o “dragão”...C’est La Vie !!!

Muito obrigada pela oportunidade. Mês que vem estarei no LabHum novamente!

Abraço

Claudia!

Obs- Muitas vezes pensei nas músicas de Chico Buarque (responsável pelas versões em português das canções da peça “O Homen de La Mancha”-1972). Cervantes e Chico fariam uma belíssima parceria, “eita” dupla para compreender a “alma feminina”!!!

 


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