Os irmãos karámazov, por Luiz Evangelista Barbosa

Dezembro de 2013

Quando cheguei ao Laboratório de Humanidades, juntamente com Sandra e Doralice, minhas colegas de trabalho, fiquei um pouco confuso. O grupo então existente no laboratório havia acabado de ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, um clássico do qual li umas primeiras páginas há muitos anos e não continuei.

Naqueles primeiros encontros a “poeira foi baixando” e fui tomando pé do que acontece ali.

 

Confesso que fiquei com certa ‘dor de cotovelo’ de não ter chegado ao laboratório, senão antes, pelo menos ao tempo em que leram o Guimarães Rosa.

Então foi escolhido o novo livro, O Rinoceronte, de Ionesco  uma obra teatral cuja leitura é um grande diálogo, mas uma mensagem muito interessante: a possibilidade que todos têm de mudar. A escolha cada um faz como e quando quiser. Essa foi, para mim, a mensagem que ficou!

A próxima obra eleita foi, então, Os Irmão Karámazov, de Dostoievski, da qual tentarei relatar brevemente a seguir.

A leitura dessa obra foi densa, bastante complexa. De início, em seu prólogo, o autor já nos avisa que o personagem Alieksiêi é seu herói, o que já incomodou bastante. Ora, como esse autor escolhe seu herói? Essa terefa não seria do leitor? Então, para se dar conta disso, tenho que ler!

Do vol I a leitura foi intediante quase cinco livros consecutivos; pouca coisa fluiu com intusiasmo.

As intrigas dos personagens, as diversas citações da Bíblia, o místico Aliócha e sua dúvida se crê ou não em Deus, a arrogância de Ivan, o desesperado e ciumento Dmitri. Tudo isso causou-me certa perplexidade.

Só no Livro V fui tomado pela obra e, a partir daí, a leitura se tornou agradável, instigante, dando sentido em tudo que até então estava sendo angustiante.

A partir dos encontros semanais onde fomos esmiuçando cada livro, pois a obra é dividida em 12 livros, a releitura, os comentários e as sensações que cada um trouxe foram mostrando a grandiosidade da obra como um todo.

O envolvimento do grupo com a leitura, as discussões, fez surgir reflexões tanto dos dias atuais como do passado, onde os personagens acabam espelhando a gente mesmo em muitas circunstâncias e até em pessoas que conhecemos ao longo de nossa vida, às vezes muito próximas, às vezes nem tanto. Posso dizer que estou vivendo neste momento uma experiência muito ampla, aberta, quase sem formalidade, isto é formidável.

Olhando para os personagens observa-se como foram suas vidas, suas emoções, ansiedades, responsabilidades, caráter, paixão, espiritualidade/religiosidade.

Dos primeiros livros apenas algumas situações foram interessantes. Entre elas a REFORMA DO TRIBUNAL ECLESÁSTICO, questão que se discutia o papel do Estado em se submeter ao Tribunal Eclesiástico. Curioso também como acontece muita coisa em pouco tempo. O encontro da família Karámazov serviu para “lavar a roupa suja” entre pai e filho. A figura do hieromonge Zóssima em contraste com o lassivo, devasso, Fiodor Pavlovitch.

Já no livro V, capítulo V, O grande Inquisidor, a narrativa se dá de maneira intrigante e reflexiva. Tanto por discutir aspectos filosóficos, quanto religiosos, bem como a preocupação com a liberdade (...) “Mas só domina a liberdade dos homens aquele que tranqüiliza a sua consciência”. Isto toca muito na alma da gente. Compreendi que a liberdade só se expressa se há Deus presente no ser humano.

Muitos temas chamaram minha atenção: a compaixão, a culpa, a liberdade, o amor ativo, a verdade, o destino humano. As idéias são vivas e concretas. Pareceu-me ser um escritor profundamente cristão e atual.

A morte do stárietz e a desolação de Aliócha causou-me uma sensação de ‘vazio’. Pareceu que ele ficou ‘sem chão’.

O julgamento de Dmitri demonstrou que os seus atos passados prevaleceram sobre a verdade, ou seja, foi condenado pelo seu passado, não pelo presente.

Nesta grande obra de Dostoiévski, a impressão que se tem é de que não se trata apenas de um autor e sim de um emaranhado de discursos filosóficos de vários autores ou pensadores-personagens.

Os personagens de Os irmãos Karamázov demonstram a decomposição e degenerescência de toda uma sociedade.

Todos discutem sobre Deus, a política, o sofrimento, a Rússia, o futuro, a moral.

Essa experiência ficou marcada. Aguardamos a próxima para que novas sensações possamos viver na busca da compreensão do ser e tornarmos melhores.

Luiz Evangelista Barbosa

 


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