Itinerário de leitura, emoções, convivência e confissão, o romance “ Os Irmãos Karamázov”

Por Sandra Aparecida de Araujo - 26/11 /2013

Segundo Dostoiévski, somos considerados leitores delicados e todos nos transformamos em críticos russos ao ler o romance até o final (pág. 14). No LabHum temos a oportunidade de ler e reler, ou seja, além de críticos nos tornamos comentador de uma magnífica obra literária. É nos dada a oportunidade de aprofundar na história, compreender, contemplar, refletir e discutir, nesta obra especificamente, mergulhamos nas profundezas do humano, onde compartilhamos de várias leituras, ampliando assim, o nosso entendimento. E após a conclusão de todas essas etapas ainda restam muitas coisas para serem discutidas, talvez num próximo itinerário.

Aliás, essa é uma obra para muitas reflexões, um livro perturbador e arrebatador sobre questões profundas a respeito de filosofia, política, família, valores, moral, religião, culpa, inveja entre muitos outros temas. Atordoante, pois como uma obra escrita em 1880 pode ser tão atual, tão viva e tão concreta?

 

Ao iniciar o romance minha preocupação era com a questão dos nomes dos personagens e como pronunciá-los durante o nosso itinerário, mas ao avançar na leitura fui me deparando com questões muito mais complexas  e com outras informações importantes, que eram desconhecidas por mim.  A partir de então, compreendi perfeitamente na prática, o verdadeiro significado da experiência estética do Laboratório, a experiência do “despertar”. Atiçou minha curiosidade. Despertou em mim o interesse para pesquisar sobre a obra, assistir o filme, visitar  a exposição no museu Lasar Segall, além de levar a discussão sobre espiritualidade para o meu trabalho e minha casa, e assim,  todos a minha volta participaram  indiretamente do Labhum.

A obra é marcante e nossa forma de esmiuçá-la a torna mais atrativa. Ela é tão intrigante que a gente faz uma primeira leitura, durante o itinerário relemos e ao discutir nas aulas surgem comentários sobre determinado parágrafo  que temos a nítida impressão que não o lemos. Muito enriquecedor  esse compartilhamento de leitura.

Há muito a ser dito sobre esta obra, mesmo sabendo que não é essa a intenção deste relatório. Mesmo assim, tecerei alguns comentários.

 

A  frase que  marcou, no meu ponto de vista foi:

- “O principal é não mentir para si mesmo. Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto, passa a desrespeitar a si mesmo e aos demais. Sem respeitar ninguém, deixa de amar e, sem ter amor, para se ocupar e se distrair entrega-se a paixões e a prazeres grosseiros e acaba na total bestialidade em seus vícios, e tudo isso movido pela continua mentira para os outros e para si mesmo.“

Porque a mentira faz mal para quem fala e para quem ouve. Ela machuca, causa danos irreversíveis, corrompe, ela é destruidora, e por ter um efeito tão devastador não só para pessoa quanto para os que a cercam, elejo este meu parágrafo marcante.

Foram abordadas questões interessantíssimas e atuais, como:

- Foi o homem que criou Deus ou Deus que criou o homem? (pag. 323 - ed. 34).”  Questionei várias pessoas sobre este assunto e as respostas foram as mais variadas. Na verdade, causa um grande impacto em quem  ouve  esta pergunta. Foi muito curioso a reação delas.

- Ficará mais fácil ir para o outro mundo se a gente souber ao certo o que existe por lá (pág. 43).  Esse é o maior de todos os mistérios, o que espera a alma humana no outro lado do mundo?   Esta foi outra questão muito discutida no meu ambiente de trabalho, a imortalidade. É evidente que cada qual tem sua religião e ficou só no debate.

- A imortalidade e Deus existem?

- Deus nos deu pouco tempo, apenas 24 horas por dia.

Durante este semestre refleti muitos sobre alguns temas abordados no livro, como:

- importância da família, dos pais, dos valores religiosos e moral, sobre o amor ativo, nobreza, Deus. Em todas as aulas tivemos a oportunidade de mergulhar profundamente nesses assuntos, trocar experiências e de alguma forma iniciar uma mudança de conduta no dia a dia. Tivemos vários depoimentos sobre essa reforma intima de alguns participantes, que se iniciou após a leitura dos irmãos Karamázov..

- “Pai, dize-me, por que devo te amar?(959), a imagem de um pai indigno, sobretudo se comparado com outros pais e as perguntas angustiantes dos jovens descrita na mesma página, somente quem passou por uma separação no casamento de forma  conturbada é quem tem esta resposta.

- Mas como na “montanha” (descrição feita por uma aluna sobre Fiodor) também vemos este mesmo pai, com os seus sentimentos bons e maus, assim como Fiodor que nos fez rir algumas vezes com suas frases:  As  vezes desafino na hora errada, a intenção é fazer rir e ser agradável. É preciso ser agradável. Com a minha gentileza acabo prejudicando a mim mesmo;  Em mim habita um espírito mau, se bem que de pequeno calibre, ele deveria ter escolhido outra morada mais importante. Eu sou o pai da mentira, na verdade sou filho, e isso já basta. (73)

- O homem é vasto, vasto até demais; eu o faria mais estreito (162). Embora não sejamos Psicólogos,  mergulhamos nesta vastidão durante este semestre.

- Refleti sobretudo, na questão da compaixão e  do julgamento precipitado.

E a questão do “Amor”, pois somente quem faz com muito amor poderia ter tanta sensibilidade ao escrever como Dostoiévski, frases como estas:  as flores eram “mimadas” por mãos experientes (60);  o frufrulhar de vestidos (209);  com um quê de denguice (213);  tremiam lágrimas sinceras (263);  outro peixinho agita levemente a água, os pássaros estão calados, tudo é silêncio, magnífico, tudo ora a Deus (402);  as folhinhas alegres brilhando (407), entre muitas outras.

 

As emoções em cada aula

O que mais me impressionava em cada encontro era a emoção com que determinadas pessoas comentavam cada livro. Ali elas expressavam sentimentos profundos, reflexões atordoantes, experiência no trabalho, mudança de comportamento, que até então não tinham nenhuma importância.

Nesse momento a gente “mergulhava” de fato e dali surgiam coisas que durante a leitura (e sozinha) seria impossível de se imaginar. E no final era atordoante, porque as ideias fervilhavam e como já mencionei várias vezes, a discussão continuava fora do Labhum (rua, trabalho, em casa).

E não é por outra razão que o nome do curso é “mergulhando nas profundezas do humano”,  esse era o verdadeiro sentimento no final de cada encontro.

E agora, no final do livro, do itinerário e do semestre, emergimos de alma lavada.  É uma sensação incrível, alegria e tristeza, ou seja, o dever cumprido e o vazio que ficou (claro que é momentâneo e logo será preenchido por outro).  E assim confirmamos a essência do romance, onde o ser humano é um enigma, é contraditório, capaz de sentir aversão por esta obra extensa e ao concluir, sentir saudades. Isso é Dostoiévski !!!!

 

História de Convivência

Este encontro foi muito interessante, pois trouxe a tona um dos maiores problemas enfrentados pelas pessoas tímidas, ou seja, falar em público.

Nossa companheira Marisa expos claramente essa dificuldade, pois nem todos possuímos  este dom, e que nem sempre é compreendido por quem o tem. Eu mesma já me prejudiquei várias vezes por não me manifestar em reunião de trabalho. Os chefes entendem isso como  incompetência, o que nem sempre, corresponde à realidade.

Karina que passou a ver o paciente com mais carinho, foi muito bom ouvir isso!!!

Muito interessante o trabalho da prof.ª Maria da Graça.

O depoimento do Licurgo com relação a sua mudança interior.

A comparação da Miriam do livro velho com o livro novo e chegar a conclusão “que somos todos Karamázov”.

E a surpresa com relação ao depoimento do Yure, por ele se sentir incomodado com a leitura. “Devemos organizar a desordem que está dentro de nós”.

Gostei muito de ter ouvido todos esses depoimentos, pois mostramos nosso ponto fraco, e cabe ao grupo ter a “compaixão”, entender que somos responsáveis uns pelos outros e procurar estender a cebolinha, auxiliando naquilo que for possível para que cada um de nós consiga atingir as metas estabelecidas, com o apoio do grupo.

 

Uma confissão:

Sai de férias do trabalho em julho com o objetivo de ler todo o livro Os Irmãos Karamázov, mas para minha surpresa recebi hospede em casa na última semana, ou seja, interrompi a leitura exatamente no livro XI O diabo. O pesadelo de Ivan Fiódorovitch.

Com o inicio do itinerário de leitura optei por reler cada livro durante a semana, sem concluir o volume 2.  E essa atitude de reiniciar foi “torturante”, pois eu não tinha a menor ideia do final. Certa vez comentei sobre Smierdiakóv e alguém rebateu dizendo que tínhamos que levar em consideração a criação dele. Então tive receio de expor minha opinião imaginando que lá na frente este personagem tivesse se modificado, transformando-se no “mocinho” da história, pois de Dostoiévski pode-se esperar qualquer coisa.

Foram meses de angustia, e quando finalmente chegamos  no capitulo XII o livro parecia que ganhava páginas: na descrição do julgamento  me emocionei por diversas vezes, por diversos motivos. Em alguns momentos, tive a impressão de estar no meio daquela multidão aglomerada, apertada, apreensiva  e ouvindo  o promotor ler seu relato. Que angustia!!!!! Durante a leitura do promotor pensava em nossa justiça, em quantas pessoas são acusadas por delitos que não cometeram.

E finalmente, após cinco meses chegamos ao final do livro, com um sentimento de alivio, por ter concluído uma obra tão extensa e ao mesmo tempo tristeza, por ter concluído uma obra tão extensa e maravilhosa como esta.

 

Obra inacabada

Infelizmente a obra ficou inacabada, não sabemos o que aconteceu com Liza, com a Srª Khokhlakova depois de ter aparecido com certas fitinhas e lacinhos.

E também não conhecemos o herói Alieksiêi Fiodorovitch, por que o escolheu como seu herói; o que lhe deu esse destaque; a quem chega sua fama e por quê? Todas essas respostas seriam descritas no 3º romance, no qual Aliocha seria o personagem central, depois de se despedir dos meninos e deixar a cidade.

E ainda, na página 790,  Dostoiévski menciona a nova paixão de Ivan que poderia servir de trama para outra história, outro romance, que talvez escreveria algum dia.

A mente de Dostoiévski não parava, ele buscava Deus o tempo todo, pois quem não acredita em Deus não acredita no povo de Deus (402).

Ele foi fantástico no que sabia fazer, e tem uma frase na qual  ele diz  “A vida é intolerável quando perdemos o melhor do nosso tempo com ocupações tão estúpidas.” Devemos fazer aquilo que gostamos, com amor e respeito, porque somente assim, atingiremos  a nossa plenitude. E estando bem conosco  conseguiremos dar o melhor para o nosso próximo. Principalmente para o pessoal que trabalha com humanização é muito importante gostar do que se faz. Cuidar com amor.

Neste semestre falamos muito de amor e de Deus e foi muito importante porque ao falar vamos incorporando em nós esses conceitos. Não foi a toa que a Karina mencionou (Historia de convivência) que ela está vendo o paciente com mais carinho. Veja como isso é confortador, ser recebido com carinho num momento de dor.

É isso que o Labhum faz comigo, ele atiça minha curiosidade e eu saio pesquisando sobre o assunto. É por isso também, que vou encerrar este trabalho, pois tenho  a impressão que estou  terminando o 3º volume dos Irmãos Karamazov, o qual Dostoiévski deixou incompleto.

“Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida que uma boa lembrança” ... (996)  e essa lembrança deste grupo de leitura levarei para sempre no coração.  Não nos esqueçamos nunca uns dos outros (998), pois eu não me esquecerei de vocês.

Infelizmente chegamos ao fim dos nossos encontros neste semestre. Muito obrigada por nos dar a oportunidade de participar desse itinerário de leitura, um momento tão enriquecedor, cheio de emoção e aprendizado.  Uma viagem !!!!

O Prof. Dante mencionou numa das aulas que o processo de humanização começa na medida em que vamos enlouquecendo,  ...... acho que ele quase conseguiu (uma loucura boa, muito boa) !!!!   Foi maravilhoso.

E num piscar de olhos terminamos o livro “Os Irmãos Karamázov”, o itinerário e o ano de 2013.

Boas férias !!!.... a gente se vê no próximo semestre.

Sandra Aparecida de Araujo (servidora na UNIFESP e aluna do LabHum)
Relatório de conclusão
26/11 /2013

 


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