Somos todos Karamázov? Meu Deus!!!!!!!!

Por Miriam Rodrigues Xavier - participante do LabHum.

Irmãos Karamázov, uns dos mais desnorteadores livros que já li, para não dizer o MAIS. Foi me recomendado na época em que estava cursando a especialização, pelo menos ha três anos atrás. Na época comecei a lê-lo. Apesar de fascinante não pude continua-lo devido às prioridades de leituras que tinha. Quando vi a chamada para o LabHum do segundo semestre de 2013 e, Irmãos Karamázov seria “O LIVRO”, inscrevi-me imediatamente, não podia perder a oportunidade. Considero uma coisa ler um livro e, outra, bem diferente, é ler um livro no LabHum. Nele não é somente a leitura é todo o método que PEGA!!!! A leitura da obra, as histórias de leitura, o compartilhamento das leituras enfim, todo o método. Conforme um dos participantes sempre comenta, o LabHum potencializa os afetos. Este potencializar dos afetos de fato ocorre em qualquer obra lida, no entanto no caso de Irmãos Karamazov foi o entrar no Katrina (furacão de categoria 5), pelo menos.

 

O livro em si como já mencionei, totalmente desnorteador, minha esperança era que no LabHum o melhorasse um pouco. Grande engano.

Laboratório de Humanidades

Primeiro dia do LabHum: histórias de leitura. Cada participante falava o que mais lhe havia afetado, impressionado; e eu, tremia não conseguia orientar meu próprio pensamento e articular palavras. O livro foi muito para mim, os personagens, a história, na verdade as histórias dentro da história, o universo em altura e profundidade. Vários foram os comentários. No entanto o que mais me impressionou foi este no qual começo este relato que talvez poderia chamar, confissão : Somos todos Karamázov? Quando ouvi esta pergunta gelei. Será?  Meu Deus! Será que somos mesmo todos Karamázov?

O livro é narrado por uma testemunha ocular dos fatos acontecidos em uma pequena cidade da Rússia. Este narrador interagindo com o leitor como um personagem a mais, conta o drama de uma família Russa cujo pai, criatura vil e corrompida é assassinado por um dos filhos. Neste primeiro encontro, na minha primeira fala articulada disse que até eu queria a morte de um ser como aquele, plagiando uma das personagens. Este pai é apresentado como um palhaço e a descrição de sua aparência já era o suficiente para me causar náuseas.  Casou-se duas vezes e teve três filhos. Sua primeira esposa mãe do primeiro filho, Dimitri, o abandona, abandonando também Dimitri com três anos de idade que foi criado a princípio pelo empregado da casa e esquecido completamente pelo pai. Sua segunda esposa morre louca e deixa dois filhos Yvan e Alieksiéi. Ambos abandonados e esquecidos pelo pai assim como Dimitri e também criados, por algum tempo, pelo mesmo empregado da casa, Gregório que, aliás, havia renegado o próprio filho por ter nascido com um dedo a mais. O livro inicia com o encontro destes três filhos na sua cidade natal depois de nunca terem se visto. Três personalidades absolutamente diferentes e profundas. Dimitri, um doidivanas, impulsivo, apaixonado com tendências ora para o bem ora para o mal, Yvan um intelectual, estudioso e Aliócha um noviço amoroso e compassivo.

A primeira impressão que se tem do livro é um emaranhar de sensações perturbadoras. No entanto com as releituras (é preciso reler o livro, aliás este, muitas vezes) é possível ver uma tênue luz no fundo do túnel. Para cada encontro no LabHum a necessidade de reler um livro (nesta obra os capítulos são chamados livros, na verdade alguns são mesmo livros dentro do mesmo livro, histórias quase à parte), nesta releitura ficou claro para mim que não é “a primeira impressão que fica”, muito pelo contrário. A releitura nos mostra que justamente de fato, a primeira impressão pode, talvez, estar afetada pelos nossos próprios pré-conceitos. No segundo livro, um dos mais fascinantes, apesar de ser difícil apontar o mais fascinante, Fiódor Pávlovitch, o pai, mostra-se espantado com o incomodo causado por sua presença aos outros convidados a uma reunião no mosteiro onde seu filho caçula morava. Ele indaga se este incomodar não seria fruto do próprio pecado de cada um. Fiódor, aparentemente mostra uma grande capacidade de enxergar a verdade de cada um e aponta-a sem cuidados. Ao longo do livro ele desfila verdades difíceis de serem aceitas como quando em conversa com Alieksiéi diz preferir viver na libertinagem, pois que todos apesar de dizerem contra, vivem assim, porém às ocultas. No entanto, ele também é revelado pelo Stáriets Zósima (religioso do mosteiro) quando então este diz que todo o mal que havia nele sobrevinha de sua imensa vergonha de si mesmo. Na fala de Fiódor, neste capítulo livro começa ele (o livro) a se mostrar em sua profundidade e largura :

Justamente quando me dirijo às pessoas, parece-me que sou a mais vil de todas e que todo mundo me toma por um palhaço; então digo a mim mesmo: “Sejamos palhaço, não temo vossa opinião, porque vós sois todos, até o derradeiro, mais vis do que eu!”. Eis por que sou um palhaço, por vergonha. Somente por timidez que me faço valentão. Porque se estivesse certo, ao entrar, de que todos me acolheriam como um ser simpático e ajuizado, meu Deus! Como eu seria bom!

Esta fala de Fiódor me foi muito comovente, pois que, muitas vezes eu também me comportei como ele por vergonha de mim mesma. E o que mais me comoveu foi sua menção ao fato de se tivesse certo de que seria acolhido teria sido uma pessoa boa. E aí me pergunto, será que nós também não criamos muitos Fiódors pela nossa desatenção e desacolhimento? (se é que esta palavra existe).

Neste segundo livro a história se delineia, vários e profundos são os temas abordados, a questão do amor a humanidade e a falta de amor ao próximo, a questão do amor atuante e a necessidade de se perceber em si as próprias falhas como comenta o Stáriets Zósima a uma senhora: “O que lhe parece mau na senhora mesma está purificado pelo simples fato de que o notou na senhora”.

Neste interessante livro aparece um dialogo entre Ivan, Míúsov, Padre Paísi e Padre Isof a cerca de seu artigo que também é mencionado em todo o livro; a questão da conversão do Estado em Igreja, no qual o Stáriets concorda com Ivan. A questão da imortalidade da alma e as leis naturais e a frase que norteou parte do livro a qual foi atribuída a Ivan: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. No entanto esta frase não é proferida por Ivan ela é subentendida pelos outros, na verdade o que Ivan diz é que não havia nenhuma lei natural ordenando ao homem que amasse a humanidade que se o amor havia reinado era por que o homem cria na imortalidade da alma e que se esta crença fosse destruída nele o amor acabaria e ele perderia a força de continuar vivo neste mundo. Neste diálogo surge a grande dor e conflito da alma de Ivan, a existência ou não de Deus. E este tema, a meu ver, é um dos centrais do livro sendo discutido em vários capítulos/livro. Neste livro também aparece Smierdiákov responsável pelo atraso de Dimitri, pois que informa o horário errado da reunião, atraso que gera uma grande confusão, mostrando desde o início o quanto este personagem perigoso passa despercebido sendo subestimado por todos.

E assim se sucedem os livros cada um com sua profundidade revelando seus personagem e nos revelando através deles. É difícil sintetiza-los e falar resumidamente sobre eles, o universo que eles apresentam não permite uma visão rasa sem que isto nos jogue e afogue numa desordem mental ainda maior. Ou seja, cada livro exige uma leitura detida compenetrada. Cada fala de cada personagem exige uma reflexão e o revela verdadeiramente, diferentemente da primeira leitura quando então o conhecemos como já havia mencionado, com o pé atrás e atrás dos muros de nossos próprios preconceitos (pelo menos dos meus). Dimitri, doidivanas e apaixonado é sabedor de seus defeitos e dentre outras falas a que mais me impressionou é a que se segue:

Sou maldito, vil e degradado, mas beijo a fímbria da veste em que se envolve o meu Deus, sou a estrada diabólica, mas sou, no entanto, teu filho, Senhor, e te amo, sinto alegria sem a qual o mundo não poderia subsistir [...] O coração acha a beleza até na vergonha, no ideal de Sodoma, que é o da maioria [...] É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha[...]

Não é difícil ter compaixão de Dimitri vendo-o tão sabedor de suas fraquezas e tão irremediavelmente amante de Deus. Ele, como é comentado no livro do julgamento (livro XII) tem consciência de sua degradação assim como de sua nobreza moral. Capaz de contemplar o abismo dos sublimes ideias e o abismo da mais ignóbil degradação ao mesmo tempo. Ele mostra intensamente a dualidade da natureza humana.

Yvan, considerado um moderno, um intelectual, ateu é o meu mais admirado personagem, o qual protagonizou os mais profundos diálogos e os que mais me desconcertaram. Não consigo não estar perfeitamente de acordo com ele. Se sou uma intelectual, uma moderna, uma ateia, não sei, mas nas falas de Ivan, desde as primeiras eu posso me encontrar. Ivan, apesar de se dizer, em alguns livros não crer em Deus, no livro V ele confessa sua crença e sua enorme dor em não aceitar a criação (diga-se bem, o homem), ele expõe de maneira clara e desconcertante aquilo que sou obrigada a concordar. É difícil ver o homem a imagem de Deus sendo o homem capaz de tantas atrocidades “as feras não atingem jamais os refinamentos do homem”, conforme Ivan. Neste V livro Ivan descreve seu poema e, na verdade, um grande livro dentro deste livro V. Uma verdadeira obra prima. O grande Inquisidor. Já li este trecho várias vezes, no entanto é difícil assimilar tudo que ele diz. Parece-me, como foi comentado na reunião do LabHum, que Ivan está fazendo uma séria critica ao cristianismo. É meio complicado assumir que é isto mesmo. Mas é isto mesmo. Outro grande momento de Ivan é o diálogo dele com o diabo. Enfim, Ivan é um grande sofredor entre as leis naturais e Deus.

Finalmente Aliocha, ou Alieksiéi. O favorito e herói do autor. Aliocha inicia no livro vivendo em um mosteiro como noviço. Passa a historia toda apaziguando os conflitos de seus irmãos pai e demais personagens que vão surgindo ao longo da história. Tem grande compaixão por todos principalmente por reconhecer em si mesmo os traços dos Karamázov sabedor de uma luta entre Deus e o diabo dentro de seu coração. Aliocha não renega o mal que sabia existir dentro de si e não esconde este fato dos demais, talvez isto o torne mais amoroso e compassivo. Aliocha ressalta a importância da educação e da casa paterna

Sabeis que não há na vida nada mais nobre, mais forte, mais são, nem mais útil que uma boa recordação, sobretudo quando essa recordação é da infância, da casa paterna. Falam-vos muito da vossa educação; pois bem, uma recordação sagrada, conservada desde a infância, talvez seja a melhor das educações.

Além do pai Karamázov e seus filhos a fileira de personagens é grande e nenhum surge de maneira aleatória com histórias destoadas da história principal. Ao contrário estes personagens vão como que sendo costurados a historia dos três irmãos. Além disto, também podemos nos ver nestes outros personagens, no orgulho de Catia, na voluptuosidade de Gruchénka, na curiosidade de Khokhlakova nos ataques de nervos de Lisa e até em Kólia, pelo menos eu me vi.....

Não tem como não se importar com o destino deles, para mim era como se estivesse lá. Fiquei com raiva de Dimitri por sua natureza intempestiva que o levou a ser condenado de um crime que não cometeu, por outro lado ficou claro como vivemos num mundo onde as aparências acabaram se tornando mais importantes que a palavra de um homem. Fiquei penalizado com Ivan, principalmente porque creio que sua dor não é a descrença em Deus, muito pelo contrário, quem não crê não sofre.

Enfim, me repetindo, este foi o mais desconcertante livro que já li. O mais difícil. Sua profundidade abismal (repetindo a fala de um dos participantes do LabHum) é estonteante, suas verdades são arrasadoras, principalmente por que elas não se referem as verdades dos personagens e sim de minhas próprias verdades. Eu sou todos eles......E para encerrar utilizo a fala de Aliocha: “É a força da Terra própria dos Karamázov, uma força violenta e brutal...ignoro mesmo se o espírito de Deus domina essa força. Sei somente que eu mesmo sou um Karamázov”.

 


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