Frankenstein de Mary Sheley e nossos frankensteinzinhos

Escrito por Yuri Bittar, monitor do LabHum

No Laboratório de Humanidades esta semana terminamos de ler Frankenstein, de Mary Sheley, escrito em 1817. Vou relatar aqui minha opinião sobe o livro, mas que é totalmente influenciada pelos colegas do laboratório e a eles credito a co-autoria deste artigo. A primeira coisa que precisamos esclarecer é que Frankenstein é o nome do cientista “maluco” Dr. Victor Frankenstein, o monstro não tem nome, apesar que podíamos chamá-lo de “Junior”. Aliás, a criatura do Dr. Victor, além de não ter um nome, não tem praticamente nada. Nasce já adulto, porém sem nenhum tipo de amparo, jogado á todas as dores do mundo, sentindo frio sem saber o que era o frio, que podia se aquecer, com fome sem saber que existia alimento, com sede sem saber o que era água e só, sem saber que podia procurar outras pessoas. Ou melhor, não podia, pois ele também era desprovido da aparência humana. O que ele tinha era uma aparência insuportável e ninguém podia olhar para ele sem sentir horror.

Parece que a questão primordial que o livro suscita é; quem é a vítima? Dr. Victor Frankenstein deu vida á criatura, e em seguida a abandonou á própria sorte. Ou o monstro, que matou pessoas inocentes por vingança?

Como alguém abandonado e odiado ao nascer poderia respeitar a vida dos que o desprezaram? E os nossos milhares frankensteinzinhos de rua, as milhares de crianças de rua, que apesar de não terem uma força descomunal ou uma aparência horrenda nos colocam medo? Segundo as contas mais otimistas aproximadamente 1800 crianças vivem nas ruas apenas da cidade de São Paulo. Podem ser muito mais, alguns falam em 4 mil.

O ódio. Dr. Victor odiou sua criatura ao vê-la. A criatura odiou o mundo, que a tratou da pior forma. O mundo odiou a criatura, talvez o maior monstro do cinema, dos desenhos, etc... É um livro sobre o ódio, ou sobre os perigos da ciência, a prepotência humana ou o desprezo? Tudo isso penso eu. Por isso é um livro muito atual, próximo de completar 200 anos. Seria porque o ser humano pouco mudou e continua insistindo nos mesmos erros ?

Mas os clássicos gregos também mantém a atualidade, depois de milênios. Mary Sheley escreveu um livro que se tornou referência, trazendo de volta o mito de Prometeu, que foi punido por Zeus por dar o fogo ao Homem, e podemos associá-lo também a Lucífer, decaído por não aceitar as ordens de Deus, Ícaro, que, não bastando voar, quis voar cada vez mais alto, até que o sol derreteu suas asas e ele despencou para a morte, ou ainda Adão e Eva, que descumpriram a ordem de Deus, de não comer da árvore do conhecimento e foram expulsos do paraíso, assim como Dr. Victor, que não satisfeito com a vida perfeita que tinha, criou o mostro que a destruiu, enfim, uma trama que explora os limites da atitude humana e as conseqüências das ações desmedidas, que não respeitam os limites humanos ou divinos. Um livro ótimo, que a colocou para sempre entre os grandes escritores da humanidade.

Mary Sheley não sabia, mas sua obra também pode ser comparada à criação da bomba atômica. O sonho de que a ciência traria infinitos benefícios para toda a população do mundo, acabou diante da constatação do horror que ela podia causar.

Leia mais sobre esse livro: http://pt.wikipedia.org/wiki/Frankenstein

Yuri Bittar

Designer, fotógrafo e Historiador

www.yuribittar.com

 


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