Na Companhia De Goethe E Nelson Rodrigues, por Miriam Xavier

Na Companhia De Goethe E Nelson Rodrigues
Por Miriam Rodrigues Xavier
2012 - 1º Semestre

NA COMPANHIA DE GOETHE E NELSON RODRIGUES

Comecei o laboratório antes mesmo de começar. Comecei nos comentários que ouvia e em minha curiosidade. Inscrevi-me finalmente para percorrê-lo e, de cara, tive uma má notícia; aliás, duas más notícias. Primeira, o livro tinha quase 600 páginas e, pior, ele era chato. Assim comentavam. Comprei o livro com os dois pés atrás. De fato, quando o pacote chegou via sedex; era pesado. Seu peso confirmava a pedreira que teria pela frente.  Não que não gostasse de ler, porque gosto. Porém, começar a ler algo cravejado de opiniões negativas era um martírio. Enfim comecei a ler com todos os pré- julgamentos concebidos, com todo o meu sofrimento antecipado. Primeira surpresa na leitura, o romance não era chato com diziam, muito pelo contrario, era interessante, cativante e provocador. Provocador principalmente, pois que eu vivia brigando e defendendo o personagem principal, o tempo todo. Sentia-me como se fosse parte do livro, um dos personagens.

Primeiro encontro no laboratório e os primeiros comentários sobre as histórias de leitura. Opiniões divergentes e acaloradas. Alguns alunos mostravam um Wilhelm Meister apaixonado pelo teatro, uma pessoa de bom coração de caráter nobre. Outros buscavam um herói que ele não demonstrava ser. Por fim a grande maioria era defensora implacável do personagem.

Ouvia aquelas opiniões como se estivesse lendo um livro diferente.

Não via nada do que meus colegas apontavam. No livro que lia via um personagem que desde criança era mimado, presunçoso e egoísta com tendências a culpar os outros por seus insucessos.  Tinha um pai severo que garantia que os homens só saberiam dar valor a um prazer que fosse raro.

Enfim, o livro conta a história de um jovem que na infância teve contato com o teatro de marionetes e encantado com ele desejou repeti-lo. Impedido pelo pai acaba sentindo-se atraído por ele, ainda mais. Porém, perdia o interesse nas brincadeiras rapidamente. Na adolescência apaixona-se por uma jovem atriz e vê seu sentimento traído. A jovem tinha um outro pretendente; não que este, mesmo que de fato existindo, tivesse tido algum romance mais sério. Desiludido Wilhelm entrega-se ao comércio, o qual seu pai considerava uma nobre ocupação. Em suas viagens de negócios começa a encontrar pessoas que influenciam seu caminho. Neste momento do livro observo um Wilhelm fraco que se deixava levar, influenciar, talvez numa postura bastante conveniente. Também começo a questionar seu amor pelo teatro (como afirmavam alguns dos participantes do laboratório), já que, na primeira desilusão muda de ideia e segue a carreira comercial. Ele tinha o sonho de fugir com sua amada atriz e abrir uma companhia de teatro, mas mudou de ideia sem ter certeza da traição sofrida.

Em sua primeira viagem encontra um casal que havia fugido para se casar, o rapaz, um ator de teatro; a moça, uma jovem da cidade. Ante uma grande confusão em que o casal preso fazem suas confissões Wilhelm decide ajuda-los, pois vê neles a sua própria história. Em conversa com o ator elogia-o e compromete-se a ajuda-lo na sua carreira artística. Continuando suas viagens encontra em outra cidade com uma trupe de saltimbancos e logo se envolve com eles. Pouco tempo depois nesta mesma cidade surge o jovem casal a quem Wilhelm ajudara anteriormente. O jovem ator cobra de Wilhelm a promessa feita. E assim, segue Wilhelm manipulado pelo que ele chamou de destino. Não tomava nenhuma decisão, deixava os fatos o levarem. No meu ignorante ponto de vista, ele se posicionava de maneira privilegiada na não decisão. Desta forma sendo sempre protegido, no caso do insucesso culpando o destino. A grande beleza que me arrebatou neste livro de Johann Wolfgang Von Goethe Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, foi a facilidade com que o autor envolve seus leitores tornando-os participantes de seu romance. É impossível (pelo menos para mim foi), não se envolver com os personagens, não se identificar com alguns deles, não querer esbofetear outros e até, e mais ainda, o próprio Wilhelm.

Durante as viagens de Wilhelm algumas figuras começam a entrar e fazer parte de sua história; como se por acaso. Figuras que tentavam impingir-lhe um certo grau de conhecimento. Posteriormente vimos que estas pessoas não estavam entrando no caminho aleatoriamente e sim por um arquitetado plano de formação de lideranças nobres que surgiam de uma certa Sociedade da Torre. No final pudemos ver que esta Sociedade da Torre foi a principal manipuladora dos caminhos de Wilhelm, que naturalmente, por sua própria natureza manipulável se deixou levar. Enfim, a cada semana de encontro no laboratório, nosso amigo (sim, nosso amigo. Porque ele acabou fazendo parte dos nossos dias e pensamentos por quase três meses. Portanto um amigo), foi sendo revelado e ao avançar das leituras e do romance ele e nós (pelo menos eu), fomos crescendo amadurecendo. No final do livro Wilhelm prepara-se para casar-se.

Nas discussões de leitura até neste fato houve divergências, uns acreditavam que ele estava se casando por interesse, outros por amor. Na verdade ele de fato amava sua nova noiva, apesar de ao longo do romance ele haver gostado e, quase seriamente se envolvido com meia dúzia de mulheres.   Porém o romance não mostra ele de fato casando, o que abre precedentes para cenas dos próximos capítulos ou dos próximos livros.

O laboratório com o livro de Goethe foi eletrizante, primeiro pelo próprio romance e seus singulares personagens, depois pelas acaloradas discussões onde cada um de nós interpretáva um Wilhelm diferente, vivo nas nossas vidas. MARAVILHOSO!!!

Começa o segundo ciclo do Laboratório. Agora eu estava satisfeita, e ainda mais ansiosa pelo começo. Íamos ler Nelson Rodrigues. Ao contrário de Goethe que tivera somente más notícias, Nelson era coberto de boas notícias. Tratei de adquirir logo a peça que iríamos ler (Vestido de Noiva). Joguei-me de cabeça; de peito aberto. Má ideia. Bati em Nelson Rodrigues como se bate em um muro. Logo em minha mente associei a jornal e repórteres sensacionalistas. Sangue escorria de suas páginas. Um horror. Tive ímpetos de desistir. Porém, não acreditei que aquele autor tão afamado escrevera algo sem fundamento, sem sentido, de mau gosto. Comecei a reler e, nesta releitura, comecei a perceber os vários e intrigantes movimento da peça.  Movimentos que se apresentavam em três momentos descritos no cenário, como: Plano da Memória, Plano da Realidade e Plano da Imaginação. Comecei perceber que alguns fatos que aconteceram no Plano da Memória, não poderia ter sido, já que de fato não tinham acontecido. Havia algo ainda de mais profundo no texto. Reli novamente. E assim, de leitura e releitura fui aprofundando no texto. A cada paragrafo era possível um profunda reflexão da vida e do próprio caráter humano e pessoal. Magnífico!!!.

Um dos comentários mais significativo veio do coordenador, que ao comentário dos participantes disse que a tendência natural nos dias de hoje, ao depararmos com algo que nos desnorteia é abandonar, não refletir, deixar de lado. De fato foi este meu primeiro ímpeto. Muito provavelmente teria largado se não estivesse participando do laboratório.

Não conhecia Nelson Rodrigues, nunca havia lido nada dele. Fabuloso, tenebroso também.

Um fato que me chamou a atenção durante o laboratório com Nelson, foi que diferentemente de Goethe, eu gostava de me sentir misturada com o conto. Quase podia me ver nos campos, nas cidadelas e até na misteriosa Torre. Na peça de Nelson não. Via tudo a uma certa distancia. Diria, talvez, distancia segura. Não sei se foi somente comigo esta sensação.

Também percebi que todos (literalmente TODOS), quando chamavam pelas obras diziam: Wilhelm Meister e Nelson Rodrigues; como se Meister fosse o autor, e no caso de Nelson como se evitassem pronunciar o nome da peça (Vestido de Noiva).

Muito interessante este fato (pelo menos para mim) e retrata talvez, a aversão e conhecimento que temos de nós mesmos e, que tentamos disfarçar na própria pronuncia de nossas palavras, como se tentássemos com isto este distanciamento seguro.

Foi uma grande satisfação participar deste laboratório. Laboratório capaz de provocar tantas sensações, emoções, aflições. Capaz de nos fazer parar da desabalada correria do dia a dia e nos olhar. É fantástico !!!!. Através de contos que aparentemente não tem nada a ver conosco, se descobre a si mesmo por entre as linhas, letras e páginas. ÓTIMO !!!

 

Miriam Rodrigues Xavier

 

 


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