Deve ser um pilantra, ninguém pode ser tão bom ou tão bobo! Por Maria Leocádia C.Viale

LabHumRelatório de convivência do Laboratório de Humanidades

Ciclo A Descoberta do Humano, livro O Idiota, de FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Primeira vez que participo do LabHum e está sendo uma experiência de aprendizado muito boa; porque não dizer terapêutica. A visão dos psicólogos que fazem parte do grupo é muito interessante.

Livro O idiota, do grego, homem simples, de Fiódor Dostoiévsky, escrito nos idos de 1860, descreve a sociedade russa cheia de normas e etiquetas, dramático e divertido, com temas da alma humana como a beleza, compaixão, amor, ódio, paixão, abuso, loucura, generosidade ,dom intuitivo e premonitório, pena de morte, execução, dinheiro, inveja e a doença epilepsia, tratada pelo autor com conhecimento de causa, por ser epilético. Se passa no século dezenove , é e será sempre atual , pois tudo está dentro de nós , os defeitos e as virtudes.

Aprendi, nesses encontros semanais,  que uma das características do epilético é falar demais e que antes de acontecer o ataque eles emitem um som meio assustador.

A princípio achei a leitura difícil de entender, muitos personagens, nomes russos, apelidos, mesmo assim, lí até o fim e muito rápido para saber o desfecho.

Quando começamos a releitura, a diversidade de opiniões e maneiras de cada um enxergar os diversos personagens, suas atitudes e personalidades foram me instigando à reflexão e a esperar ansiosamente pelo próximo encontro semanal com o grupo.

Interessante é que a primeira parte do livro acontece em um dia, com o personagem principal, príncipe Michkin, se envolvendo em uma conversa com dois desconhecidos, no trem, contando sua vida como se os conhecesse há anos. A amabilidade e disposição do príncipe em responder às perguntas sarcásticas de Rogójin e Liebdiév, sem perceber nenhuma maldade, sem se ofender e até rindo das piadinhas que faziam a seu respeito. Já comecei a gostar dele, me pareceu uma pessoa ingênua, sincera , verdadeira.

A primeira questão, na releitura com o grupo, foi a do julgamento precipitado; eu me acho uma pessoa crítica mas em nenhum momento duvidei do caráter do príncipe Michkin, até alguém do grupo dizer que a princípio o achou um pilantra porque ninguém pode ser tão bom ou tão bobo assim e quando ele diz que prefere estar com as crianças e que isso o faz feliz, mais uma vez o pré julgamento de que poderia ser um pedófilo. Meu Deus! como não pensei nisso?   Parei para refletir : Sou crédula até que me provem o contrário mas não é com tudo que sou assim, meu  sexto sentido dificilmente falha. Penso que é só ter olhos para ver além das aparências. Depois desse primeiro encontro fiquei mais instigada e prestei maior atenção à leitura. Como todo bom livro este me fez mergulhar no tempo e passei a viver a história e a imaginar os personagens, a época e onde  viviam e a me colocar no lugar deles.

A paixão que o príncipe Michkin provocou em alguns, em especial numa pessoa do grupo que se apaixonou pelo príncipe a ponto de chorar quando o criticavam; isso me fez pensar que sabendo que o autor se inspirou no Cristo, ela o via como um ser divino, por ser tão bondoso, sincero e o melhor que um ser humano pode ser . Concordamos que o príncipe sempre desperta o melhor das pessoas e também o amor das crianças.

Por outro lado, o príncipe, provocou a raiva e indignação em outros por acharem que não existe neste mundo obcecado por dinheiro, poder e conquistas pessoas assim, salvo Jesus Cristo , Madre Teresa,Chico Xavier e mais alguns poucos.

Sobre a empatia entre Rogójin, um homem de personalidade sombria e de caráter duvidoso e a relação de amor e ódio que mantinha com o príncipe Liev Nikolaiévitch Michkin, por conta da paixão e  ciúme doentio que sentia de sua amada , a  belíssima Nastácia Filipóvna. Reflexão: Rogójin assim como o príncipe Michkin era uma mente doentia? Rogójin amava Nastácia pela beleza física ? Sem dúvida, todos concordaram. E o príncipe? Era diferente amava as pessoas incondicionalmente, com seus defeitos e virtudes,e também  conseguia captar, eu acredito, com seu dom intuitivo a alma e o coração das pessoas. Só de olhar para uma fotografia de Nastácia Filipóvna ,conseguiu enxergar todo o seu sofrimento e  loucura.

Acredito que existem pessoas com uma sensibilidade mais aguçada.

O príncipe Michkin, vê com os olhos da alma, a índole, a essência das pessoas, como  no primeiro encontro com as mulheres da família Iepántchin e quando a generala quis saber sobre a filha caçula, Aglaia, ele disse : A senhorita é tão bela que dá medo olhá-la e é difícil julgar a beleza. A beleza é um enigma (pag.102), tanto para o bem como para o mal.

Aglaia Ivanóvna, criada para“ dar certo na vida” e isso significava casar - se com o  detentor de todas as perfeições e êxitos, sem falar em riqueza.(pag.61), como se isso fosse garantia de felicidade. Refletindo a respeito me veio à lembrança as palavras de minha mãe : Nunca se relacione com alguém pelo que ela possui de bens materiais e sim pelo modo como lhe trata, nas atitudes é que se vê o amor  verdadeiro, principalmente se for com quem voce pretende se casar.

Sobre Nastácia Filipóvna, algumas pessoas, do grupo, não entendiam porque ela agia de maneira tão fora dos padrões, houve quem achou que ela tinha consciência do mal que causava às pessoas, portanto, era louca por conveniência mas para mim, o que causou esse comportamento foi o abuso sofrido desde a juventude por parte do riquíssimo fazendeiro Afanassi Ivanóvitch, o Totski, que depois a descartou como um objeto. Reflexão : A beleza é uma faca de dois gumes, pode ajudar mas também atrapalhar, pode abrir ou fechar portas. No caso de Nastácia, Totski se encantou pela sua beleza e a arruinou.

Concordamos que os personagens mais originais são, o príncipe, Nastácia ,Aglaia e a generala. Que o general Ivólguin, pai de Gavrila, Varvara e Kólia era um homem decadente. O vício em jogo, bebida e  amante o fizeram cair em desgraça.

O personagem descrito como belo e fascinado por dinheiro ,sem talento, sem vontade para o trabalho e invejoso é  Gavrila  Ardalianóvitch Ivólguin. Discutimos o desmaio de Gania, apelido de Gavrila, depois de sofrer humilhação na casa de Nastácia como o início de sua transformação e  concordamos que o autor quis mostrar sua luta em vencer a si mesmo,  na questão do seu amor pelo dinheiro.  Nastácia não é escrava do dinheiro mostra isso jogando – o no fogo ou isso é sinal de sua loucura? Opiniões divididas.

Quando discutimos sobre a família Iepántchin, burguesa , preocupada com a opinião alheia e relacionar - se sómente com pessoas da alta sociedade, mesmo não fazendo parte da nobreza, aí entra o dinheiro novamente, o fato de Ivan Fiódorovitch Iepántchin estar prosperando cada vez mais nos negócios faz com que a família seja aceita  Ou será que  ele prospera nos negócios porque tem amizade com pessoas importantes? Na minha opinião  o general Ivan Fiodórovitch Iepántchin tem talento mas também sorte por ter caído nas graças de uma pessoa importante que deu aquele empurrãozinho, no início de sua vida de casado. Competência e sorte .

.Me identifiquei com a generala  Liisavieta Prokófievna Iepántchina, descrita como forte, impulsiva, dramática,  benevolente e esquisitona, comentei isso com o grupo e mais uma vez pude constatar como as aparências enganam. As pessoas disseram : imagine, você não é nem um pouco parecida com ela, mas como as pessoas podem achar que me conhecem , se nos vemos somente uma vez por semana?  é com a convivência diária  que podemos dizer que conhecemos um pouco das pessoas.

O tema morte, nos trouxe sentimentos desde pena até  o desejo que  o personagem Hippolit morresse logo e quando morreu, o comentário geral foi, até que enfim.

O final do livro trouxe mais algumas divergências de opiniões, alguns acharam muito triste e que não deveria ter terminado de maneira tão trágica, outros, inclusive eu, penso que a vida não é um conto de fadas e que  personalidades doentias como Rogójin, Nastácia e o príncipe Michkin só poderiam terminar da forma como terminaram, não me espantei. Tudo tem o lado bom e o ruim e a vida é maravilhosa de ser vivida mas dói.

Bem, se for escrever tudo o que se passa agora na minha cabeça sobre os assuntos que o livro suscitou em mim, vou escrever outro livro de seiscentas páginas).

Termino meu relatório, não como eu queria mas com uma certeza,   quero continuar participando do LabHum .

Até o próximo semestre.

Maria Leocádia C.Viale

Servidora da Unifesp aposentada

25/10/2016

 


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